Lula critica dono do Banco Master e evidencia desigualdades financeiras em evento no Nordeste
Lula critica dono do Banco Master e desigualdades financeiras

Durante um evento de entrega de moradias do programa Minha Casa, Minha Vida em Maceió, Alagoas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) direcionou críticas contundentes ao empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Lula afirmou que a crise envolvendo a instituição financeira evidencia as profundas desigualdades do sistema bancário brasileiro, onde os mais pobres acabam sendo os mais prejudicados.

Críticas ao caso Banco Master e defesa das políticas sociais

Em seu discurso, o presidente destacou o valor do ressarcimento aos investidores afetados pelo Banco Master, que será feito através do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Serão devolvidos R$ 40,6 bilhões a aproximadamente 800 mil pessoas, configurando o maior resgate da história do fundo. Lula questionou a lógica de um sistema onde um único indivíduo pode causar um prejuízo dessa magnitude, enquanto a população de baixa renda sofre as consequências.

"Não é possível que a gente continue vendo o pobre ser sacrificado enquanto tem um cidadão do Banco Master que deu um golpe de mais de R$ 40 bilhões", declarou Lula, acrescentando que quem acabará arcando com os custos são os próprios bancos, como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Itaú. O presidente não poupou críticas aos supostos defensores de Vorcaro, acusado de fraudes contra o sistema financeiro, incluindo a emissão de títulos de crédito falsos.

Daniel Vorcaro foi preso em novembro, mas atualmente cumpre prisão domiciliar em São Paulo com o uso de tornozeleira eletrônica. Aproveitando o momento, Lula defendeu as políticas públicas de seu governo, como os reajustes reais do salário mínimo, o programa Bolsa Família e a iniciativa Brasil Sorridente, de assistência odontológica. "Se nós não cuidarmos das pessoas mais pobres, elas vão ficar mais pobres", ressaltou.

Aliança política em Maceió e acenos eleitorais para 2026

O evento em Maceió também serviu como palco para demonstrar a aproximação entre o presidente Lula e o prefeito da cidade, João Henrique Caldas, mais conhecido como JHC. Apesar de ter apoiado o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) nas eleições de 2022, JHC vem sinalizando uma mudança de postura nos últimos meses. Durante o ato, ambos permaneceram sentados lado a lado e mantiveram longas conversas reservadas.

Em seu discurso, o prefeito fez um aceno público ao petista, declarando: "A política tem que ter menos apontar os dedos e mais estender as mãos, e é isso que estou fazendo com o senhor hoje. É um pacto social, um pacto por Maceió, um pacto por Alagoas e um pacto pelo povo do nosso Brasil". A cena simboliza uma possível realinhamento político em um estado tradicionalmente marcado por disputas internas.

Presenças de peso e articulações nos bastidores

O evento contou com a participação de diversas lideranças políticas, incluindo:

  • Guilherme Boulos (PSOL), secretário-geral da Presidência da República
  • Alexandre Padilha (PT), ministro da Saúde
  • Renan Filho (MDB), ministro dos Transportes e ex-governador de Alagoas

Em seu pronunciamento, Renan Filho reafirmou o apoio do pai, o senador Renan Calheiros (que não estava presente), à reeleição de Lula em 2026. "O lugar de Renan em 2026 é onde Renan sempre esteve, ao lado do presidente Lula", afirmou o ministro. Notavelmente ausente da primeira fila de convidados estava o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP), que foi vaiado por parte do público presente.

Acordos políticos e tréguas estratégicas

Nos bastidores, a política alagoana vive um momento de rearranjos significativos. A longa disputa entre Renan Calheiros e Arthur Lira tem arrefecido nos últimos meses, com a costura de um amplo acordo entre seus grupos políticos. Esse entendimento visa as eleições de 2026 e envolve articulações nos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Um dos elementos centrais desse acordo foi a indicação, por parte de Lula, da procuradora de Justiça de Alagoas Marluce Caldas Bezerra – tia do prefeito JHC – para uma vaga no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Segundo interlocutores próximos às negociações, essa indicação está atrelada a uma promessa de JHC de não renunciar ao cargo para disputar outras posições nas eleições de 2026.

O acordo político estabelece que:

  1. Arthur Lira poderá concorrer ao Senado com o apoio de Lula, ao lado de Renan Calheiros, que buscará a reeleição.
  2. O senador licenciado Renan Filho, atual ministro dos Transportes, tentará retornar ao governo de Alagoas, cargo que ocupou entre 2015 e 2022.
  3. O governador Paulo Dantas (MDB), em seu segundo mandato, não deve concorrer a outro cargo neste ano.

Esses entendimentos também influenciaram a tramitação do projeto que aumenta a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000 mensais, relatado por Lira na Câmara dos Deputados. O governo avaliava que uma possível interferência de JHC nos planos eleitorais de Lira poderia criar obstáculos à aprovação da medida. Contudo, a ida do projeto ao Senado revelou que a trégua entre Renan Calheiros e Arthur Lira não é completa – em outubro, o emedebista criticou publicamente modificações feitas pela Câmara no texto original enviado pelo Palácio do Planalto.

O evento em Maceió, portanto, transcendeu a simples entrega de moradias, transformando-se em um microcosmo das complexas relações políticas brasileiras, onde críticas ao sistema financeiro se entrelaçam com alianças estratégicas e planejamentos eleitorais de longo prazo.