Haddad na Fazenda: Economia cresce, mas controle de gastos divide mercado financeiro
A economia brasileira apresentou resultados superiores às expectativas nos últimos anos, com crescimento consistente do Produto Interno Bruto (PIB), inflação dentro das metas estabelecidas e um mercado de trabalho aquecido. No entanto, a relação entre o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o mercado financeiro permaneceu marcada por instabilidades e divergências significativas.
Após pouco mais de três anos à frente do Ministério da Fazenda, analistas econômicos avaliam que Haddad não conseguiu avançar em reformas estruturais cruciais para garantir a sustentabilidade da economia a longo prazo. O principal ponto de tensão foi a dificuldade em controlar os gastos públicos, com sucessivas revisões e alterações nas metas fiscais estabelecidas pelo governo.
O calcanhar de Aquiles fiscal
Embora Haddad tenha conquistado parte da confiança do mercado financeiro no início de seu mandato, com um discurso focado no equilíbrio das contas públicas e na contenção de despesas, seus planos enfrentaram resistências internas significativas dentro do próprio governo. Nos primeiros dias de gestão, em 2023, o ministro afirmou categoricamente que não aceitaria o déficit previsto para aquele ano e trabalharia ativamente para reduzi-lo.
"Um dos méritos de Haddad é que ele sempre buscou dialogar com o mercado e com analistas, explicando a agenda econômica e os objetivos do governo", destaca Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de macroeconomia da Tendências Consultoria.
A aprovação do arcabouço fiscal ainda em 2023 representou um passo importante para demonstrar o compromisso do ministro com as contas públicas. Contudo, o resultado fiscal daquele ano – com um déficit de R$ 249 bilhões – pesou consideravelmente na avaliação do mercado financeiro.
Segundo Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos e ex-secretário da Fazenda de São Paulo, embora Haddad tenha herdado despesas do governo anterior que precisaram ser honradas em 2023, o ministro também carrega parte da responsabilidade pelo aumento dos gastos naquele período.
"Ele manteve regras que aumentam despesas automaticamente e não discutiu mudanças em benefícios como aposentadorias, abono salarial, seguro-desemprego e BPC. Isso também aumentou a pressão sobre as contas públicas", afirma Salto.
No ano seguinte, o déficit caiu para R$ 47,6 bilhões – uma redução superior a 80% em relação a 2023. Mesmo assim, problemas orçamentários persistentes, dificuldades em cortar gastos e a autorização de despesas fora da meta fiscal voltaram a minar a confiança do mercado em Haddad.
Arrecadação em alta e gastos em expansão
Apesar dos esforços de Haddad para manter a credibilidade das contas públicas, especialistas apontam a falta de medidas concretas para reduzir despesas de forma estrutural. O ministro realizou uma nova tentativa de cortar gastos em novembro de 2024, ao anunciar um pacote de medidas que previa economizar R$ 70 bilhões em dois anos.
Esse gesto, no entanto, não foi suficiente para recuperar a confiança do mercado, especialmente porque no mesmo dia foi anunciado o aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil – uma promessa de campanha do presidente Lula vista imediatamente como um novo compromisso de gastos.
"O governo também enfrentou dificuldades para reduzir gastos por causa do Congresso. Haddad tentou discutir várias propostas, mas muitas acabaram sendo enfraquecidas pelos próprios parlamentares", explica André Galhardo, economista-chefe da consultoria Análise Econômica.
Entre as medidas que contribuíram para aumentar a arrecadação estão mudanças em impostos, como o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e a chamada "taxa das blusinhas", que passou a cobrar imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50.
"Ainda que o ministro tenha adotado algumas medidas corretas para aumentar a arrecadação, elas não foram suficientes para mostrar estabilidade da dívida. O ponto mais sensível, que seria controlar o crescimento das despesas obrigatórias, não foi enfrentado", complementa Ribeiro, da Tendências.
Segundo dados do Banco Central, desde o início do mandato de Haddad a dívida bruta do governo em relação ao PIB subiu aproximadamente sete pontos percentuais, alcançando 78,66%. Para este ano, a previsão do Tesouro Nacional é que a dívida chegue a 83,6%.
Reforma tributária: um marco histórico
Apesar das dificuldades em controlar gastos, os especialistas reconhecem o mérito de Haddad na defesa e aprovação da reforma tributária, após três décadas de discussões no Congresso Nacional. A reforma, aprovada em dezembro de 2023, criou um imposto sobre valor agregado (IVA), definiu uma cesta básica nacional isenta de tributos e estabeleceu o Imposto Seletivo, conhecido como "imposto do pecado".
"Essa é uma reforma extremamente difícil e que, no início, poucos acreditavam que sairia do papel. Ainda não é o modelo ideal, mas deve gerar efeitos positivos para a economia ao longo do tempo e conta a favor de Haddad", avalia Ribeiro.
Os especialistas, contudo, ressaltam que ainda há um longo caminho para completar a reforma tributária no país. Segundo Nelson Marconi, economista e coordenador do curso de administração pública da Fundação Getulio Vargas (FGV), uma parte importante que ainda precisa ser discutida é a reforma sobre a renda.
"O governo poderia ter feito uma reforma tributária mais ampla, que também incluísse a tributação da renda e a revisão de despesas e desonerações. A taxa de 10% sobre a renda dos mais ricos é um passo, mas ainda é insuficiente", afirma Marconi.
Crescimento econômico contra todas as previsões
A dificuldade em implementar um plano de gastos mais alinhado às expectativas do mercado não impediu que Haddad entregasse crescimento econômico e controle inflacionário melhores do que o previsto. Durante seu mandato, o PIB cresceu acima das projeções do mercado em todos os anos.
A inflação também permaneceu dentro do intervalo de tolerância da meta em dois dos três anos em que esteve à frente da Fazenda – resultado em grande parte do rigor do Banco Central em manter juros elevados, apesar das pressões do governo federal.
"A economia tem apresentado um desempenho positivo, com crescimento elevado. Mesmo com a desaceleração em 2025, a atividade ainda cresceu bastante para o padrão recente do país", avalia Salto.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB do Brasil cresceu 2,3% em 2025. O resultado representa uma desaceleração em relação ao ano anterior, mas marcou o quinto ano consecutivo de crescimento da economia.
Parte dessa desaceleração também reflete os juros elevados, que permanecem em 15% ao ano desde junho de 2025. "A política monetária restritiva [juros altos] e o alto endividamento das famílias, que bateu recorde no ano passado, têm puxado um pouco o consumo para baixo", afirmou Rebeca Palis, coordenadora de contas nacionais do IBGE.
Apesar dos juros elevados, o mercado financeiro avalia que o Banco Central agiu corretamente em não ceder às pressões. "Além disso, o fato de Haddad ter respeitado a autonomia do Banco Central e permitido que a instituição atuasse sem interferência também é um ponto positivo", destaca Salto.
Mercado de trabalho em destaque
Os especialistas consultados também destacam os bons resultados do mercado de trabalho e da renda como parte do legado de Haddad. "Esse é um indicador ligado ao crescimento da economia e que também ficou melhor do que o mercado previa. O mercado de trabalho está realmente muito positivo", avalia Alessandra Ribeiro.
Segundo o IBGE, a taxa média de desemprego no Brasil ficou em 5,6% em 2025 – o menor nível da série histórica, iniciada em 2012. Já o rendimento médio real das pessoas ocupadas foi estimado em R$ 3.560, representando uma alta de 5,7% em relação a 2024.
O balanço do mandato de Haddad na Fazenda revela, portanto, um cenário complexo: crescimento econômico robusto e controle inflacionário de um lado, mas desafios persistentes no controle de gastos e aumento da dívida pública de outro – um equilíbrio delicado que continuará a definir a relação entre o governo e o mercado financeiro nos próximos anos.
