O senador Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal à Presidência da República, enfrenta uma crise política de grandes proporções devido a transações financeiras obscuras com o Banco Master, envolvendo valores milionários. A situação, que veio à tona recentemente, gerou desconfiança entre aliados e abalou a credibilidade do candidato.
Reunião tensa no Congresso
Em uma reunião no Congresso Nacional, cerca de cinquenta parlamentares aliados de Flávio Bolsonaro se reuniram para discutir o escândalo. O clima foi de tensão, com poucas respostas do senador sobre suas relações com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Mesmo entre os apoiadores mais fiéis da extrema direita, ficou evidente a dificuldade em lidar com a corrosão da credibilidade de um candidato presidencial que, a cada dia, apresenta uma versão diferente sobre seu envolvimento em um esquema de fraudes financeiras bilionárias.
Segredo revelado
Uma das poucas certezas sobre o caso é que Flávio Bolsonaro deliberadamente ocultou do partido e dos aliados seus negócios com o ex-banqueiro. O segredo foi revelado recentemente pelo Intercept Brasil, que expôs a cobrança de 134 milhões de reais do Banco Master, epicentro de fraudes em fundos públicos e privados. O candidato teria recebido ao menos 45% desse valor, ou seja, 61 milhões de reais, em uma operação suspeita envolvendo um fundo nos Estados Unidos, administrado por um advogado ligado a um dos irmãos do senador, Eduardo Bolsonaro.
Possível desistência da candidatura
Enredado no escândalo, Flávio Bolsonaro teria procurado o pai, Jair Bolsonaro, para discutir a possibilidade de renunciar à candidatura. Jair, que o ungiu como candidato da família à Presidência, vetou a desistência e descartou a ideia de lançar Michelle Bolsonaro como substituta. No entanto, não revelou se teria uma alternativa aprovada.
Efeito corrosivo
O impacto negativo na credibilidade do candidato ficou claro na reunião de contenção de danos promovida pelo Partido Liberal. Flávio Bolsonaro não conseguiu convencer a maioria a se engajar em sua defesa; pelo contrário, gerou ainda mais desconfiança ao prometer esclarecer tudo “em trinta dias”. Desde então, cogita-se no partido que ele desista da corrida presidencial e tente a reeleição ao Senado pelo Rio de Janeiro, na vaga inicialmente destinada ao ex-governador Cláudio Castro, que está inelegível.
Incerteza entre aliados
A incerteza sobre o custo político da crise atemoriza os aliados, que suspeitam ter feito uma aposta errada ao aceitar passivamente a candidatura de Flávio Bolsonaro. Ele é dono de um reconhecido histórico de vulnerabilidades políticas, acumulado em quinze anos como deputado estadual no Rio de Janeiro e, nos últimos sete, como senador. Os aliados temem por suas próprias candidaturas, lembrando a frase do escritor Nelson Rodrigues: “todos são inocentes e todos são cúmplices”.
Impacto nas pesquisas
A onda de choque do escândalo do Banco Master também atingiu o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto, semeando dúvidas sobre o futuro da candidatura presidencial de oposição mais destacada nas pesquisas. Um levantamento recente do consórcio Atlas/Bloomberg já indica uma queda na preferência por Flávio Bolsonaro. Embora a posição do presidente Lula não tenha se alterado, o declínio de Flávio o deixou na liderança, com 7 pontos de vantagem.
Ironia da extrema direita
O caso representa mais do que um susto para a extrema direita, pois afeta as perspectivas do grupo no cenário político nacional. Em 2018, esse agrupamento conseguiu se tornar viável como alternativa de poder e elegeu Jair Bolsonaro, com apoio de frações da direita. No entanto, ele passou metade do mandato em isolamento político. Em 2021, para viabilizar sua reeleição, arrendou o Partido Liberal, de Valdemar Costa Neto, e migrou para lá com cerca de quarenta parlamentares. Em seguida, compartilhou o governo com o Centrão e entregou a Casa Civil ao senador Ciro Nogueira, acusado de receber “mesada” de até 500 mil reais do Banco Master.
A extrema direita passou os últimos oito anos pregando virtudes éticas na vida, nos negócios e na política, condenando com estridência os malfeitos dos adversários. Por ironia, agora o candidato Flávio Bolsonaro passa os dias tentando explicar o inexplicável: seu envolvimento no escândalo das fraudes bilionárias do Banco Master, supostamente para financiar a cinebiografia do pai, Jair Bolsonaro.
Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA. Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996.



