Em março de 2013, a então presidente Dilma Rousseff viajou a João Pessoa para um evento oficial. No palanque, em tom eleitoral, a petista mandou um recado aos inimigos que tramavam barrar sua reeleição: 'Podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição'. Dilma não sabia, mas viveria nos meses seguintes a fúria das manifestações de 2013 e a eclosão da Operação Lava-Jato. Candidata à reeleição contra a vontade de Lula, que desejava voltar em 2014, a petista se reelegeu galopando uma coleção de escândalos revelados por operações semanais da força-tarefa de Curitiba. Naquela campanha, dezenas de delatores expuseram um país dominado por propinas e caixa dois a partir de contratos da Petrobras. Escândalos não faltaram, mas nada impediu Dilma de derrotar Aécio Neves usando a máquina do Planalto.
O tempo como aliado eleitoral
Algumas conclusões daquela campanha servem de referência para aliados de Lula e de Flávio Bolsonaro nesta corrida eleitoral repleta de escândalos. A primeira questão é o tempo. Lula vive hoje o conforto de ver seu principal adversário fritando no noticiário por causa das mentiras sobre as relações com Daniel Vorcaro. Não faz muito tempo, o petista estava nessa posição, apanhando por causa dos negócios de Lulinha com o Careca do INSS e do desfile da Sapucaí que ironizou famílias conservadoras. O tempo colocou a folia de Lula e os negócios do filho no esquecimento.
A aposta de Flávio Bolsonaro
Essa magia é esperada agora por aliados de Flávio, crentes que a mentira do senador sobre Vorcaro sumirá das mentes dos eleitores antes do início da campanha, apagada por novas revelações sobre o envolvimento do petismo em escândalos investigados no STF. É provável que a campanha seja uma corrida de obstáculos em que os candidatos, de escândalo em escândalo, se alternem nas pesquisas.
Lições de 2014 e 2022
Em 2014, com a máquina na mão, Dilma venceu apesar das revelações bombásticas sobre a corrupção petista. Lula espera repetir esse feito usando a máquina palaciana e a lógica de que 'podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição'. Já são cerca de 150 bilhões de reais em medidas populistas de distribuição de renda, um desastre fiscal para o próximo governante. Entre 2019 e 2022, Jair Bolsonaro protagonizou escândalos, incluindo a postura negacionista que levou o país a perder mais de 700 mil vidas na pandemia. Na urna, perdeu por pouco. O tempo ajudou o ex-mandatário a chegar competitivo ao pleito, pois a emergência sanitária já havia sido superada.
A memória curta do eleitor
O histórico nacional mostra que a memória do eleitor é curta e pouco influente no voto, assim como o escândalo de cada dia não significa o fim de um candidato. Num país que se respeita, seria o fim. Nessa esquina sofrida da América Latina, o eleitor costuma se apegar às tragédias que cria para si. Essa certeza é o que move os candidatos.



