Uma pesquisa exclusiva realizada pelo instituto Vetor Arrow a pedido da revista VEJA revela que os conservadores brasileiros são muito mais diversos e menos radicais do que o estereótipo sugere. O estudo, que ouviu 2.413 pessoas, mostra que essa parcela da população, que já representa 53% dos brasileiros segundo levantamento da Quaest, está disposta a dialogar com o presente e não apenas a retroceder no tempo.
Cinco tribos conservadoras
Pesquisas qualitativas conduzidas pela professora Esther Solano, da Unifesp, identificaram cinco grupos que impulsionam o apego à tradição, mas desafiam o lugar-comum. Quatro deles professam um conservadorismo mais suave: as "antifeministas light", que defendem a participação feminina na sociedade; o "agronejo", que une agronegócio e música sertaneja; o "pentecostalismo pop", uma nova forma de viver a fé cristã; e os "trabalhadores de app", motoristas e entregadores que valorizam o trabalho autônomo. Na ponta mais radical, surge a "masculinidade à antiga", de jovens que pregam a superioridade masculina.
Antifeminista light
Angélica de Oliveira, 38 anos, solteira e independente, defende que as mulheres tenham destaque na sociedade, mas não por causa do feminismo. "Não precisamos protestar para abrir espaço. O movimento quer levar o crédito por conquistas pessoais", afirma.
Agronejo
Lediane Salake, 23 anos, produtora rural do Paraná, se define como "agrogirl" e celebra que seu estilo de vida virou moda. "Antes, todo mundo caçoava", lembra a pecuarista, que não abre mão do chapéu e da bota.
Pentecostal pop
João Guilherme Ferreira, 26 anos, frequenta a igreja Novos Começos, que promove cultos com luzes e som semelhantes a shows. "É possível ter um relacionamento mais flexível com Jesus", garante.
Trabalhador de app
Rennan Damásio, 34 anos, motorista de aplicativo há sete anos, prefere a autonomia à carteira assinada. "Prezo mais a liberdade do que a segurança financeira", diz ele, que fatura cerca de 5.000 reais por mês.
Masculinidade à antiga
Éric Reis, 37 anos, terapeuta de casais, rejeita discursos de ódio, mas defende a divisão tradicional de tarefas, com o homem como provedor. "O marido traz segurança à esposa", afirma.
Nuances nas opiniões
A pesquisa mostra que, na agenda dos costumes, seis em cada dez brasileiros preferem preservar valores familiares. No entanto, mais da metade (53%) diz que a fé não interfere em suas escolhas políticas. A maioria (77%) acredita que o governo deve estar presente na economia ou garantir serviços básicos. Apenas 18% defendem que o homem seja o único provedor, enquanto 74% aprovam a divisão de responsabilidades entre o casal.
Impacto nas eleições
O levantamento adiciona desafios às campanhas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Flávio busca moderar o tom, abandonando temas como defesa de armas e usando até o pronome neutro "todes". O PT tenta agradar pela economia, com propostas como a extinção das bets, e o ministro Guilherme Boulos foca em saúde financeira das famílias.
Os trabalhadores de aplicativo, que cresceram 25% entre 2022 e 2024, são um bloco disputado. O governo apresenta projetos para conquistá-los, como seguro em caso de acidente. "Essas pessoas não querem carteira assinada, mas almejam algumas garantias", explica o sociólogo Ricardo Festi, da UnB.
Igrejas evangélicas e cultura
As igrejas evangélicas são terreno fértil para o discurso conservador, mas abertas em outras áreas. O "agronejo" exalta o interior e movimenta um setor que faturou quase 800 bilhões de reais em 2025. "A defesa de uma identidade baseada no campo é um valor em si", aponta Gustavo Alonso, autor de livro sobre música sertaneja.
Na ponta radical, os "red pills" pregam a primazia masculina. "As mulheres vêm reivindicando igualdade, e muitos não aceitam a mudança", diz a socióloga Marcela Castro.
Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993.



