Se pudessem, Donald Trump e Xi Jinping esmagariam o concorrente com o maior gosto. O bom, para o mundo, é que não podem: precisam se tolerar mutuamente porque chegaram a um nível de interdependência em que um não pode viver sem o outro. Não existe ONU que se compare a isso como forma de garantir a paz e o “abraço forte e apertado” que o presidente americano espera do chinês – aquele que negou a Lula da Silva – deverá mostrar isso quando se reunirem na quinta-feira.
Entrelaçamento de interesses
O entrelaçamento de interesses obviamente não significa que a rivalidade tenha ficado menor. Ao contrário, os dois líderes se enfrentam em todas as esferas, a multimilenar China como a potência ascendente, os Estados Unidos, na juventude dos 250 anos, enfrentando desafios sem precedentes à sua hegemonia. Um PIB de 15 trilhões contra um de 31 trilhões é coisa de gigantes como jamais existiu antes na história da humanidade. Também jamais existiu uma situação em que a hegemonia não é disputada pela força, mas por elementos como produção, comércio, serviços, tecnologia e, agora, mais do que tudo, inteligência artificial.
Avanço tecnológico chinês
O New York Times notou o recente salto chinês nesse campo, com a possibilidade de que o país atinja a independência em matéria dos semicondutores de alto desempenho – uma mudança estrondosa. Trump também continua capaz – teoricamente – de impor tarifas de 145% sobre produtos chineses, mas não tem alternativas às terras raras, o motor da alta tecnologia.
Estratégias americanas
Em compensação, o presidente americano, habitualmente descrito pela maioria da mídia como um desatinado incapaz de pensamento estratégico, fez alguns movimentos interessantes no seu primeiro ano de governo. Entre eles, recuperou a dominância americana sobre o Canal do Panamá, trouxe o petróleo venezuelano de volta à esfera americana e se tornou a maior potência exportadora energética do mundo. Só um exemplo: 65% do gás comprado pela União Europeia vem dos Estados Unidos e a dependência vai aumentar mais ainda à medida que as sanções contra a Rússia vão crescendo.
Guerras do ópio e dependência energética
Os problemas são conhecidos, incluindo uma guerra com o Irã na qual Trump entrou com a ligeireza de quem dá o resultado por garantido, enfrentando agora o teste da realidade. Mas o fato é que a guerra, em estado de suspensão pelo cessar-fogo, pode custar aprovação interna e prestígio internacional a Trump, além de aliados altamente insatisfeitos, como os países do Golfo, mas pesa mesmo é no bolso da China, cuja maior fragilidade é justamente a energética. Xi precisa mais da abertura do Estreito de Ormuz do que Trump. Irá optar pelo trânsito livre do petróleo ou pelo desgaste contra o rival americano? É uma das grandes dúvidas do encontro ao qual Trump chegará com uma comitiva de bilionários que, juntos, têm mais de 900 bilhões de dólares.
Riqueza e negócios como força predominante
Ficar rico é glorioso, celebrou o reformista Deng Xiaoping ao incentivar a mudança sísmica que tirou a China da miséria comunista e a colocou na mesa, em pé de igualdade, com os Estados Unidos. Se ganhar dinheiro através dos negócios continuar a ser a força predominante nas relações entre as duas grandes potências, é melhor para todos. A China tem memórias traumáticas da época em que as potências ocidentais dominantes, Inglaterra e França, travaram guerras para obter privilégios comerciais, inclusive a venda de ópio. Hoje, são os americanos que se queixam da produção de fentanil vindo da China para envenenar sua população. Encontrar uma solução negociada convém muito mais do que os efeitos humilhantes das guerras do ópio, incluindo a pavorosa destruição do Palácio de Verão, a preciosidade imperial saqueada e incendiada por soldados ingleses e franceses. Ter uma China rica, para seus padrões, e bombando de tecnologia, mesmo que muita coisa seja fruto da pura espionagem industrial, é bom para o mundo. O “abraço apertado” que Trump espera selaria isso.



