Governo Lula planeja reestruturar o Coaf com 66 novos cargos e 6 subunidades regionais
Coaf terá 66 cargos e 6 subunidades para combater crimes financeiros

Governo Lula planeja reestruturar o Coaf com 66 novos cargos e 6 subunidades regionais

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está preparando uma reestruturação do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) para intensificar o cerco a crimes financeiros. A medida surge após uma série de episódios que colocaram à prova a segurança do sistema em 2025, exigindo uma resposta robusta das autoridades.

Detalhes do plano de reestruturação

O plano em discussão, ao qual a Folha de S.Paulo teve acesso, prevê a criação de 66 cargos comissionados e a implementação de seis subunidades regionais. A proposta de decreto presidencial foi encaminhada pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, ao Ministério da Gestão, com um prazo de cerca de um mês para resposta.

Com essa reestruturação, o número total de cargos comissionados no Coaf subirá de 75 para 141. Dos 66 novos postos, 48 serão destinados à reestruturação da sede e outros 18 à implementação das subunidades regionais.

Contexto e justificativas para a mudança

Em documento que terá o presidente Lula como destinatário, Galípolo argumenta que a evolução das transações financeiras, que passaram a incorporar novas tecnologias como criptoativos e a integrar fluxos monetários em escala global, impõe desafios operacionais e analíticos ao Coaf.

O presidente do Banco Central destaca ainda que houve uma ampliação significativa das responsabilidades do órgão desde 2019, quando o Coaf passou a ser vinculado administrativamente à autoridade monetária. Atualmente, o órgão processa mais de 7,5 milhões de comunicações por ano, um volume que exige capacidade analítica aprimorada.

Problemas estruturais identificados

Na exposição de motivos, Galípolo reproduz apontamentos feitos em nota técnica elaborada pelo próprio Coaf sobre a limitação de pessoal e a defasagem da estrutura atual do órgão. Ele cita o impacto do reduzido quadro de funcionários efetivos sobre a capacidade operacional da unidade de inteligência financeira.

Além disso, o presidente do BC menciona que a alta rotatividade de servidores cedidos de outros órgãos dificulta a consolidação de equipes técnicas especializadas. A estrutura da organização precisa ser atualizada para atender a demandas legais, tecnológicas e operacionais do sistema de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.

Essa defasagem, segundo ele, compromete a celeridade das análises de inteligência e a efetividade das ações de supervisão, colocando em risco a eficácia do combate a crimes financeiros.

Questões legais e eleitorais

A criação de novos cargos em ano de eleições, como será o caso em 2026, não é vedada pela legislação eleitoral. No entanto, as regras da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) trazem impedimento em caso de aumento de despesa nos 180 dias finais do mandato.

De 4 de julho até a posse dos eleitos, é proibido nomear ou contratar servidores. Contudo, existem exceções legais, entre elas, para cargos em comissão e funções de confiança, como é o caso proposto pelo Coaf.

Contexto de segurança e investigações

A reestruturação do órgão ganha contorno poucos meses depois de o próprio Banco Central endurecer uma série de regras regulatórias para fortalecer a segurança do sistema financeiro nacional. Essa medida foi tomada após ataques hackers e da identificação da infiltração do crime organizado na economia.

Os ataques cibernéticos se intensificaram em 2025 após megaoperação realizada contra a atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC) em negócios regulares da economia formal, como os setores de combustíveis e financeiro.

O Coaf também está no centro de um inquérito sigiloso aberto pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para apurar se houve quebra de sigilo na Receita Federal ou no Coaf de integrantes da corte e familiares.

Subunidades regionais e suas funções

Além do reforço de funcionários, a reestruturação do Coaf prevê a criação de seis subunidades de inteligência financeira com o objetivo de ampliar sua presença regional. Segundo nota técnica do órgão, a carência de estruturas locais restringe a capacidade de resposta rápida e limita a compreensão individualizada dos riscos e ameaças de cada região.

Cada subunidade será composta por um coordenador-geral, dois coordenadores e oito servidores especializados. Entre as principais funções que deverão ser exercidas estão análise financeira, inteligência estratégica, fiscalização suplementar de pessoas supervisionadas na região e cooperação com autoridades estaduais e federais.

Localidades escolhidas e justificativas

As localidades sugeridas para as subunidades são:

  • Campo Grande (MS) e Foz do Iguaçu (PR), por serem rotas de tráfico e de crimes transfronteiriços
  • Recife (PE), pela presença de facções criminosas
  • Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP), pela grande concentração de instituições financeiras e pelo alto volume de comunicações
  • Belém (PA)

Em algumas delas, como Belém, Recife, São Paulo e Rio de Janeiro, o Banco Central já tem sede. Já cidades como Campo Grande e Foz do Iguaçu a autarquia não tem representação local.

A implementação da subunidade do Rio de Janeiro responde a uma determinação judicial de Moraes nos autos da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) das Favelas, que restringe operações policiais nas comunidades do município.

Investimentos e custos estimados

Para instalação física e tecnológica e para aquisição de equipamentos das seis subunidades em 2026, o investimento inicial calculado é de R$ 2,49 milhões. Já o gasto anual para manutenção delas, incluindo remuneração de cargos comissionados e despesas operacionais, é estimado em cerca de R$ 30,8 milhões.

Benefícios esperados e declarações

A expectativa interna é que a reestruturação organizacional traga benefícios como aprimoramento analítico, melhora na governança e consolidação de uma política nacional integrada de inteligência financeira.

"A proposta reforça o papel do COAF como autoridade central do sistema nacional de inteligência financeira, garantindo a sustentabilidade de sua missão e o cumprimento das recomendações de organismos internacionais, como o GAFI [Grupo de Ação Financeira], em termos de autonomia, estabilidade e capacidade técnica. Como resultado, ocorrerá o fortalecimento da atividade de combate ao crime organizado", diz Galípolo no documento.

Plano mais amplo e contexto de gestão

O aumento de pessoal e a criação de núcleos regionais fazem parte de um plano mais amplo para reforçar o trabalho do Coaf, que inclui renovação de sistema para elaboração de relatórios de inteligência financeira, com uso de inteligência artificial.

Ricardo Saadi, ex-diretor da Polícia Federal, assumiu o comando do Coaf em meados do ano passado, após receber do Banco Central promessa de mais investimentos para modernizar e fortalecer o órgão.