CCJ da Câmara aprova PEC que acaba com escala 6x1 e propõe redução da jornada de trabalho
CCJ aprova PEC que acaba com escala 6x1 e reduz jornada de trabalho

Comissão de Constituição e Justiça da Câmara avança com proposta histórica sobre jornada de trabalho

Em decisão simbólica realizada nesta quarta-feira (22), a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou o parecer favorável à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que estabelece o fim da escala de trabalho 6x1 no Brasil. Com este importante aval, a proposta agora seguirá para análise de uma comissão especial, onde será debatido o mérito das mudanças propostas.

Duas propostas unificadas em um único relatório

O relator deputado Paulo Azi (União Brasil-BA) elaborou um documento conjunto que analisa dois textos distintos apresentados por parlamentares de esquerda. A primeira proposta é de autoria da deputada Erika Hilton (PSOL-SP) e foi apresentada no ano passado, prevendo a redução da jornada de trabalho para quatro dias por semana, com prazo de 360 dias para entrada em vigor da nova regra.

A segunda PEC é do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) e data de 2019. Este texto propõe a redução da jornada de trabalho para 36 horas semanais, estabelecendo um prazo mais longo de 10 anos para a implementação completa da norma.

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Diferença em relação à proposta do governo federal

É fundamental destacar que estas propostas são distintas do projeto de lei apresentado pelo governo Lula na terça-feira (14), que prevê a redução do limite da jornada semanal para 40 horas e estabelece a mudança da escala de 6 para 5 dias de trabalho, garantindo dois dias de descanso remunerado. Atualmente, a legislação brasileira estabelece como máximo 44 horas semanais de trabalho.

Análise de admissibilidade constitucional

O relatório apresentado por Paulo Azi na CCJ limitou-se a analisar a compatibilidade das propostas com a Constituição Federal, processo conhecido como admissibilidade. Segundo o parlamentar, ambos os textos preenchem os requisitos constitucionais necessários para avançar no Congresso Nacional.

O debate substantivo sobre o conteúdo das PECs, incluindo seus méritos e possíveis impactos, ocorrerá exclusivamente na comissão especial que será constituída para este fim.

Recomendações do relator para transição gradual

Apesar de a análise da CCJ não avançar sobre o mérito das propostas, Paulo Azi incluiu recomendações importantes em seu relatório. O parlamentar sugere a discussão sobre uma regra de transição progressiva para a implementação das novas normas, permitindo a adaptação gradual do setor produtivo brasileiro.

"O comparativo internacional evidencia que diversas reformas, como as implementadas no Chile, na Colômbia e no México, foram realizadas de forma gradual", afirmou o relator. "Existem exemplos de redução de jornada implementada em duas etapas, com prazos diferenciados conforme o porte da empresa, bem como cronogramas escalonados com reduções anuais sucessivas."

Paulo Azi enfatizou que "deverá ser avaliada com rigor, nos debates subsequentes, a necessidade de incorporar ao texto aprovado um regime de transição que compatibilize a efetividade da reforma com a capacidade de absorção dos distintos setores econômicos".

Impactos além da esfera trabalhista

O deputado do União Brasil alertou que a reestruturação da jornada de trabalho "possui potenciais impactos que extrapolam a esfera trabalhista, alcançando o financiamento da Seguridade Social". Esta observação destaca a complexidade e o alcance das mudanças propostas, que podem afetar múltiplas dimensões da economia brasileira.

Proposta de compensação fiscal para empresas

Uma das sugestões mais relevantes apresentadas por Paulo Azi é a criação de mecanismos de compensação para as empresas, com a redução de tributos, especialmente sobre a folha de pagamentos. Esta medida consideraria a possibilidade de elevação dos gastos com pessoal caso a redução de jornada entre em vigor.

"Uma possibilidade para mitigar estes riscos da redução da jornada é fazer compensações fiscais, ou seja, reduzir tributos, especialmente sobre a folha, para os agentes que reduzirem sua jornada", destacou o relator, mencionando que esta abordagem foi adotada por alguns países europeus.

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O parlamentar recomendou enfaticamente que "a Comissão Especial a ser constituída investigue cuidadosamente as medidas de compensação fiscal realizadas na Europa, de forma a avaliar possíveis adaptações para o contexto brasileiro".

Estimativas de impacto econômico

Um levantamento realizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que uma redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas poderia elevar os custos com empregados formais na economia brasileira entre R$ 178,2 bilhões e R$ 267,2 bilhões por ano. Segundo a entidade, este valor equivale a um acréscimo de até 7% na folha de pagamentos das empresas, demonstrando a magnitude dos possíveis impactos financeiros das mudanças propostas.

A aprovação na CCJ representa um passo importante no longo processo legislativo que pode transformar radicalmente as relações de trabalho no Brasil, mas o caminho até a eventual implementação ainda inclui debates aprofundados, negociações políticas e ajustes técnicos consideráveis.