Etanol de cana: Brasil lidera transição energética com biocombustível consolidado
Etanol de cana: Brasil lidera transição energética com biocombustível

Etanol brasileiro se destaca na corrida global por energia renovável

Enquanto o mundo busca alternativas para substituir os combustíveis fósseis, o Brasil se posiciona com uma solução já consolidada e em larga escala: o etanol de cana-de-açúcar. Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o país alcançou impressionantes 37,5 bilhões de litros na safra 2025/2026, registrando crescimento de 0,8% em relação ao ciclo agrícola anterior. Junto com os Estados Unidos, o Brasil concentra 80% da produção mundial deste biocombustível, que se revela cada vez mais crucial na transição energética global.

Uma realidade consolidada que enfrenta desafios

"O mundo está pedindo mais energia renovável, e o etanol já é uma realidade. Não precisa inventar nada para ter um combustível mais limpo", avalia Guilherme Nastari, diretor da consultoria Datagro, durante o evento Cana Summit realizado em Ribeirão Preto (SP). Diferente de outras tecnologias que ainda precisam ser desenvolvidas ou ganhar escala, o Brasil construiu um modelo que combina com sucesso a produção de energia e alimentos, servindo de referência para outras nações.

Contudo, para ampliar sua relevância neste cenário, o setor precisa superar desafios significativos. A demanda por biocombustíveis tende a crescer, impulsionada principalmente por setores de difícil eletrificação como a aviação e o transporte marítimo. O potencial é tão expressivo que, segundo Nastari, o Brasil sozinho não conseguiria suprir toda a necessidade mundial. "Existe um potencial enorme, tanto para o combustível sustentável de aviação (SAF) quanto para o marítimo", afirma o especialista.

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Concorrência com o milho acende alerta sobre produtividade

Apesar da posição consolidada, a cana-de-açúcar enfrenta concorrência crescente do milho na produção de etanol. Na safra 2025/2026, segundo a Conab, o volume de combustível com origem no cereal chegou a 10,17 bilhões de litros, um aumento expressivo de 29,8% em relação à safra passada, correspondendo a 27% da produção total de etanol. Enquanto isso, o etanol produzido a partir da cana atingiu 27,33 bilhões de litros.

Esta disputa acende um alerta sobre a necessidade de a cana se tornar mais produtiva para manter sua competitividade. Walter Maccheroni, gestor de Inovação da Usina São Martinho, pondera que a comparação direta entre as duas culturas pode ser imprecisa. "São culturas diferentes. O milho é uma planta anual, mais simples de melhorar geneticamente. A cana é perene, mais complexa", explica.

O desafio é que, enquanto o milho se beneficia de tecnologias globais e do investimento de grandes multinacionais, o desenvolvimento genético da cana ainda depende majoritariamente de esforços locais. Para Jaime Finguerut, diretor do Instituto de Tecnologia Canavieira (ITC), o potencial da cana está longe de ser alcançado. "O potencial genético da cana pode chegar a 400 toneladas por hectare, mas hoje estamos muito abaixo disso. Precisamos avançar em produtividade para competir melhor", defende.

Diversificação e futuro além dos veículos convencionais

Para garantir a sustentabilidade do negócio a longo prazo, o setor aposta na diversificação. As usinas estão se transformando em "biorrefinarias", capazes de gerar múltiplos produtos a partir da cana. Além do etanol e do açúcar, a cana já gera energia elétrica a partir da queima do bagaço, biometano produzido com os resíduos da produção, Combustíveis Sustentáveis de Aviação (SAF) - um mercado promissor - além de bioplásticos e outras fibras que substituem materiais de origem fóssil.

"As usinas caminham para biorrefinarias, com pesquisa e investimento", resume José Guilherme Nogueira, CEO da Organização de Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil (Orplana). A visão do setor não é de exclusão entre culturas, mas de convivência, com a integração entre cana e milho sendo uma estratégia para o futuro.

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Carros elétricos e a proteção do mercado flex brasileiro

Outro ponto de atenção para o futuro do etanol é o avanço dos carros elétricos, que podem reduzir a demanda por combustíveis líquidos. Contudo, especialistas acreditam que essa transição não será imediata e terá custos elevados. No caso específico do Brasil, o etanol deve manter sua relevância por muitos anos, principalmente devido à frota dominante de veículos flex, que podem ser abastecidos tanto com gasolina quanto com o biocombustível.

Esta característica única do mercado nacional funciona como uma proteção para o setor, garantindo uma demanda estável enquanto o futuro da mobilidade se desenha. A combinação entre tradição produtiva, inovação tecnológica e características específicas do mercado brasileiro posiciona o etanol de cana como protagonista na transição energética nacional e internacional.