Em entrevista à revista Veja, o ex-ministro da Educação e senador Camilo Santana (PT-CE) fez uma análise detalhada do cenário político atual, abordando a reprovação ao governo Lula, as eleições no Ceará e polêmicas recentes. Um dos principais líderes do PT no Nordeste, Santana defendeu humildade para entender a insatisfação popular e a necessidade de justiça fiscal.
Reprovação ao governo Lula
Segundo Camilo Santana, a alta expectativa gerada pelos primeiros mandatos de Lula não foi plenamente atendida neste terceiro mandato. "Este mandato gerou uma expectativa muito grande na população por causa dos governos Lula 1 e 2, quando houve um crescimento importante no país, ganho salarial, aumento do poder de compra. Mas isso foi se achatando um pouco nos últimos anos", afirmou. Ele destacou que o governo precisou focar em retirar o Brasil do Mapa da Fome e retomar programas sociais, o que consumiu energia e tempo.
Questionado sobre erros de comunicação, Santana ponderou que as fake news e a polarização nas redes sociais dificultam a transmissão de informações positivas. "Precisamos estudar um pouco a dificuldade de fazer com que as informações positivas possam chegar mais claras à população, mas também ter a humildade de avaliar em que estamos errando."
Novas demandas da população
O ex-ministro apontou que as necessidades dos brasileiros mudaram. "Hoje o brasileiro quer ter um bom celular, quer ter acesso a uma plataforma de streaming, quer usar o iFood. As necessidades são outras, a gente precisa entender isso." Ele observou que, embora a massa salarial tenha aumentado e o desemprego esteja baixo, o endividamento cresceu, indicando que as pessoas "estão sonhando mais, querendo mais".
Justiça fiscal e ajuste
Sobre o ajuste fiscal, Santana defendeu a justiça fiscal como caminho. "O que precisa ser feito é justiça fiscal. Depois de quarenta anos, fizemos a reforma tributária, que vai desburocratizar." Ele elogiou a proposta de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, mas defendeu avançar na tributação do patrimônio. "O andar de cima tem que pagar essa conta."
Disputa no Ceará e Ciro Gomes
Camilo Santana criticou a aliança de Ciro Gomes com o bolsonarismo, classificando-a como "decepção". "Ele se juntou a tudo que era do bolsonarismo, a turma que negou a vacina, que era negacionista em relação à ciência." Sobre as pesquisas que mostram Ciro à frente do governador Elmano de Freitas, Santana minimizou: "Pesquisa é retrato do momento. A campanha é um processo no qual você vai dialogar com a população, mostrar o que fez."
Escândalo Banco Master
O senador comentou as revelações sobre o envolvimento de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, do Banco Master. "O que choca mais a gente é que Flávio negava qualquer relação, qualquer contato, e os áudios mostram que existia uma relação muito íntima entre eles." Ele defendeu apuração rigorosa e punição dos envolvidos. Sobre a lista de políticos do PT com relações com o banco, afirmou: "O Brasil merece respostas. Confio na seriedade do trabalho da Polícia Federal."
Violência e segurança pública
Santana destacou a complexidade do combate ao crime organizado. "Nenhum estado vai resolver esse problema sozinho, porque o crime ultrapassou fronteiras, se internacionalizou." Ele defendeu a PEC da Segurança, leis mais duras e o enfrentamento ao financiamento das organizações criminosas. "A questão da segurança não será resolvida com bravatas, falando alto, querendo ser o xerife de tudo. É preciso trabalhar com inteligência, estratégia e cooperação."
A entrevista abordou ainda a possível indicação de Jorge Messias ao STF, que Santana prefere deixar para depois das eleições, e a necessidade de restaurar a relação institucional com o Senado para votar matérias importantes, como a PEC da Segurança e o projeto dos minerais críticos.



