Argentina aprova reforma trabalhista de Milei após protestos violentos em Buenos Aires
Argentina aprova reforma trabalhista após protestos violentos

Argentina aprova reforma trabalhista de Milei após protestos violentos em Buenos Aires

O Senado da Argentina aprovou na madrugada da última quinta-feira (12) a reforma trabalhista promovida pelo presidente Javier Milei, com 42 votos a favor e 30 contra. A proposta, que agora segue para análise da Câmara dos Deputados, representa uma das maiores mudanças na legislação trabalhista do país em décadas, revisando regras que remontam aos anos 1970.

A votação foi marcada por intensa tensão política e social. Na quarta-feira (11), manifestantes contrários à reforma entraram em confronto violento com a polícia em Buenos Aires, em protestos organizados por sindicatos e partidos de oposição que afirmam que a proposta fragiliza direitos históricos dos trabalhadores.

Principais mudanças da reforma trabalhista

Para garantir apoio político e acelerar a tramitação, o governo negociou cerca de 30 alterações no texto original, incluindo a retirada do artigo que permitiria pagamento de salários em moeda estrangeira ou carteiras digitais. Mesmo com esses recuos, a proposta mantém transformações significativas:

  • Férias flexíveis: Podem ser fracionadas em períodos mínimos de sete dias e negociadas fora do período tradicional
  • Restrições a greves: Em setores essenciais, exige mínimo de 50% a 75% de prestação de serviço
  • Período de experiência ampliado: Até seis meses, podendo chegar a oito ou doze em alguns casos
  • Jornada flexível: Ampliação de 8 para até 12 horas diárias, com compensação conforme demanda
  • Mudanças na negociação coletiva: Permissão para acordos diretos entre empresas e sindicatos locais
  • Alterações em indenizações: Redução no cálculo e possibilidade de pagamento parcelado
  • Combate à informalidade: Eliminação de multas por falta de registro e criação de mecanismos de regularização

Contexto do mercado de trabalho argentino

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina referentes ao terceiro trimestre de 2025, o país tinha 13,6 milhões de pessoas ocupadas e cerca de 1 milhão de desempregados, com taxa de desocupação de 6,6%. A informalidade atinge aproximadamente 43% do mercado de trabalho, sendo que apenas 63,3% dos assalariados têm emprego formal com desconto previdenciário.

O setor de serviços concentra cerca de 70% dos empregos, seguido pela indústria e construção com aproximadamente 22%, e pela agropecuária com cerca de 8%. Apesar do desemprego relativamente baixo, o mercado é marcado por elevada informalidade, subocupação e jornadas extensas.

Divergências entre especialistas

Francisca Vila, coordenadora de Assuntos Públicos da Prospectiva, afirma que há consenso sobre a necessidade de atualizar a legislação trabalhista, mas a proposta provoca forte divisão social. "É uma reforma muito ampla, com muitos artigos, e uma das mais importantes desde a redemocratização da Argentina", destaca.

Juliana Inhasz, professora e economista do Insper, aponta que a reforma pode trazer benefícios como maior dinamismo econômico e redução de custos para empresas, mas também riscos de fragilização das relações trabalhistas, aumento da insegurança no emprego e enfraquecimento do poder dos sindicatos.

Paulo Renato Fernandes, da Escola de Direito da FGV Rio, avalia que a reforma busca atualizar uma legislação criada nos anos 1970 que não acompanhou as transformações do mercado de trabalho. "Não é possível entrar no século XXI com uma legislação pensada para outra realidade", argumenta o especialista.

Próximos passos e contexto político

O texto será analisado em comissões da Câmara dos Deputados após o feriado de Carnaval, com o governo trabalhando para aprová-lo antes de 1º de março, quando Milei abrirá o período de sessões ordinárias do Congresso.

Desde que Milei assumiu a Presidência em dezembro de 2023, cerca de 300 mil empregos formais foram perdidos, especialmente na construção civil, indústria e economias regionais. Enquanto o governo defende que a reforma pode ajudar a reverter esse cenário, sindicatos e empresários criticam a abertura às importações que, segundo eles, levou ao fechamento de 18 mil empresas nos últimos dois anos.

Apesar das divergências, o governo mantém a meta de transformar a proposta em lei nas próximas semanas. "É a lei possível", afirmou a senadora Carolina Losada, aliada de Milei, ao defender o acordo construído no Senado.