Marcinha: 42 anos de paixão pelo samba que inspira o Carnaval de Curitiba
Maria Aparecida de Souza, mais conhecida como Marcinha, aos 61 anos, é considerada a "rainha das rainhas" das escolas de samba de Curitiba. Com uma trajetória que já dura 42 carnavais, ela chegou à capital paranaense aos 13 anos, vinda de Maringá, e encontrou na Avenida Marechal Deodoro seu palco de glórias e emoções.
Do improviso ao legado nas fantasias
Nos bastidores da folia, Marcinha não brilha apenas na avenida. Ela é a artesã por trás de muitos dos figurinos que encantam o público. Tudo começou quando ela era responsável apenas pela própria fantasia, comprando materiais em São Paulo sem saber exatamente como utilizá-los. "Eu ia para São Paulo, comprava horrores de materiais e não sabia fazer nada. Ficava tudo jogado até eu começar a tentar", recorda.
A virada aconteceu quando Paolla Elisa Armentano Ferreira, rainha da escola Enamorados do Samba, pediu que Marcinha criasse sua fantasia. "Eu olhava aquela mulher e pensava: 'Quando eu crescer, quero ser igual a ela'. Pelo samba, pelo carisma, pelo jeito de mexer com o povo", conta Paolla, que cresceu admirando Marcinha.
Após quase 20 dias de provas e ajustes, nasceu a primeira fantasia criada por Marcinha para outra pessoa. "Quando a Paolla me pediu, comecei a acreditar que podia fazer algo bonito para Curitiba. É só acreditar e ir", destaca. Hoje, sua agenda de encomendas costuma lotar ainda em novembro, e em um dos carnavais mais intensos ela chegou a produzir 18 fantasias.
Preparação e superação: do câncer ao retorno triunfal
A preparação de Marcinha para o Carnaval começa cedo, com disciplina de atleta. Em julho, ela inicia treinos específicos na academia para manter o fôlego necessário para atravessar a avenida. Entre 2019 e 2025, enfrentou um desafio ainda maior: um tratamento contra o câncer que a afastou do asfalto, mas não da festa.
"Eu não tinha energia para sambar. Então fui para o carro alegórico. Mas agora passou tudo. E para fazer qualquer coisa na vida, você precisa se preparar", relata. Este será seu primeiro Carnaval de volta à função que a consagrou, após anos desfilando em carros alegóricos durante o tratamento.
Inspiração que atravessa gerações e comunidades
Nas passarelas, Marcinha é o centro das atenções. Nos bastidores, tornou-se referência para muitas outras mulheres apaixonadas pelo Carnaval. Mas seu impacto vai além da folia: parte do dinheiro que ganha com a venda de fantasias é investida em cestas básicas para doação e na realização do Natal de crianças de famílias em situação de vulnerabilidade.
"Eu não tive nada quando eu era criança. Eu brincava com espiga de milho e caquinhos de vidro. Eram meus brinquedos. Então é algo que vem de dentro de mim desde a infância, que eu preciso ajudar o máximo que eu puder, sobretudo com alimentos", conta emocionada.
Para Paolla, a relação com Marcinha transcende o Carnaval. "Virou uma relação de mãe, de avó. Eu perdi minha avó e vejo muito dela na Marcinha. Na alegria, na força. Mesmo nos dias difíceis, ela está ali, feliz. Eu quero ser igual a ela", reforça a jovem rainha.
O brilho que continua a inspirar
Eleita seis vezes Rainha do Carnaval de Curitiba e sete vezes princesa, Marcinha segue sendo destaque de chão da escola Enamorados do Samba, no Grupo Especial, e madrinha da ala das passistas da escola Asas de Prata, no Grupo de Acesso.
Em quatro décadas dedicadas ao Carnaval curitibano, Marcinha se tornou sinônimo de alegria. "O Carnaval não é só samba. Não é necessário saber sambar, gente. Carnaval é alegria", define com a sabedoria de quem vive a festa há mais de 40 anos.
Para ela, ser referência para rainhas como Paolla é o impulso que a motiva a seguir por ainda mais carnavais. "É lindo ver o carinho delas. Nas redes sociais, elas falam que eu sou inspiração. Mas isso é uma troca. Lá atrás, quando comecei, sempre dei muito carinho. E continuo dando", afirma, mostrando que seu legado vai muito além das fantasias e dos desfiles.