Quartos de empregada em extinção? Documentário e podcast debatem moradia no Brasil
Quartos de empregada em extinção? Filme e podcast debatem

Duas produções audiovisuais que estrearam neste mês colocam em pauta as complexas relações de moradia no Brasil. O documentário "Aqui Não Entra Luz" investiga o polêmico quarto de empregada e sua herança histórica, enquanto o podcast "A Síndica" mergulha nos absurdos e no poder da síndica "perpétua" do icônico Edifício JK, em Belo Horizonte. Histórias reais que provocam reflexão sobre o mercado imobiliário e a convivência em grandes centros urbanos.

Documentário expõe realidades de empregadas domésticas

Dirigido por Karol Maia, o documentário "Aqui Não Entra Luz" retrata cinco histórias de mulheres que trabalharam como empregadas domésticas em diferentes estados do Brasil. São relatos dolorosos, com momentos de humor, que expõem casos de violência, exploração e apagamento. A diretora explica que a ideia surgiu do interesse em entender como a arquitetura do quarto de empregada dialogava com a da senzala, tanto nas dimensões físicas quanto simbólicas. Em 2015, o filme "Que Horas Ela Volta?", estrelado por Regina Casé, já havia alcançado grande repercussão ao abordar a rotina de uma empregada doméstica. Agora, "Aqui Não Entra Luz" coloca uma lupa sobre um tema ainda presente no mercado imobiliário.

Mercado imobiliário: quarto de empregada em extinção?

Cada vez mais, os empreendimentos estão sendo lançados sem o dormitório de funcionária, mas a maioria ainda inclui o cômodo na planta. Entre as hipóteses para essa mudança estão as alterações na legislação trabalhista de 2015 para empregadas domésticas, que regulamentou horas extras e jornada de trabalho, tornando mais caro manter funcionárias dormindo na residência. Outra hipótese é que a maioria dos lançamentos tem metragem compacta, o que impossibilita a inclusão desse cômodo. Uma solução para compensar a ausência do quarto é a criação de espaços de convivência e descanso no próprio prédio, permitindo que cozinheiras, faxineiras, motoristas, seguranças ou babás desfrutem de momentos de pausa de forma mais reservada.

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Podcast revela histórias de poder e absurdo no Edifício JK

O podcast "A Síndica", do jornalista Chico Felitti, apresenta histórias de humor, poder e absurdos que nortearam a convivência dos moradores com a síndica do icônico Edifício JK, projetado por Oscar Niemeyer em Belo Horizonte. Tombado como patrimônio cultural em 2022, o complexo residencial abriga cerca de 5 mil pessoas. O podcast de cinco episódios semanais detalha, por meio de depoimentos, a trajetória de Maria Lima das Graças, conhecida como a síndica "perpétua", que permaneceu 42 anos no comando do condomínio. Entre as histórias incríveis estão a proibição de cachorros pisarem as patas no piso do prédio, levando moradores a passear com os pets no colo enquanto andam de skate, e o caso de uma condômina que, revoltada com a exigência de pagamento do condomínio apenas em dinheiro, entregou 10 quilos de moedas para quitar a parcela do mês.

Gestão controversa e herança

A síndica, auto-intitulada Doutora Graça, tinha alguns apoiadores que não enxergavam os abusos cometidos. Ela criou uma cláusula na convenção de condomínio que obrigava qualquer candidato a síndico a deixar uma caução de 4 milhões de reais, o que afastava concorrência. A posição era tentadora: o prédio possui arrecadação mensal de mais de 500 mil reais, fora os aluguéis dos espaços comerciais. Doutora Graça faleceu em março, após complicações de saúde. Ao jogar luz sobre essa personagem, a produção amplia o debate sobre gestão condominial, conflitos urbanos e relações de convivência em grandes centros residenciais.

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