Manifestações massivas na Alemanha em apoio a atriz vítima de deepfakes pornográficos
Milhares de pessoas tomaram as ruas de diversas cidades alemãs em um movimento de solidariedade à atriz, modelo e apresentadora Collien Fernandes, de 44 anos. A mobilização ganhou força após a denúncia pública de que seu ex-marido, o ator e apresentador Christian Ulmen, de 50 anos, teria criado perfis falsos em redes sociais para divulgar vídeos pornográficos falsos dela, gerados por inteligência artificial, conhecidos como deepfakes.
Caso expõe lacunas na proteção legal e impulsiona movimento #MeToo digital
Os protestos, muitos organizados pelo coletivo Vulver, destacaram as "lacunas gritantes" na proteção jurídica das mulheres no ambiente online na Alemanha. A publicação de uma investigação da revista Spiegel em março sobre o caso evidenciou a urgência de regulamentação, mesmo com um projeto de lei sobre deepfakes já em preparação pelo governo.
Em comunicado à AFP, Fernandes declarou: "Durante mais de dez anos fui abusada virtualmente por meu próprio marido. Ele me oferecia a outros homens para ter relações sexuais. Durante anos procurei o responsável, inclusive em um documentário. Nunca teria suspeitado do meu marido". Ela acrescentou que acredita que seu caso "ilustra muito bem até que ponto extremo a violência digital pode escalar".
Investigações em andamento e críticas ao sistema jurídico
O Ministério Público alemão confirmou na sexta-feira (27) que está investigando Ulmen com base em uma "suspeita inicial" apresentada pela atriz. Uma denúncia anterior, feita em 2024, havia sido arquivada em junho por falta de pistas para identificar o autor dos vídeos.
Fernandes criticou duramente o marco jurídico alemão, classificando o país como um "paraíso para os agressores" em casos de violência digital. Por isso, ela também apresentou uma queixa na Espanha, onde o casal residia e a legislação sobre violência contra mulheres é considerada mais rigorosa.
Protestos históricos e reações políticas controversas
Os atos de apoio mobilizaram multidões, com destaque para os 17.000 manifestantes que protestaram em Hamburgo no dia 26 de março, pressionando o governo por mais proteção. Collien Fernandes, que recebeu ameaças de morte, participou de um evento usando um colete à prova de balas sob um casaco, afirmando: "pois [há] homens, e apenas homens, que querem me matar", sob aplausos da multidão.
Luna Sahling, porta-voz da Juventude dos Verdes, que organizou uma marcha em Munique, declarou à AFP: "Precisamos de leis verdadeiras que sensibilizem especialmente as mulheres sobre esta violência digital". Ela destacou que os manifestantes também estão "do lado das vítimas que não têm uma voz tão forte nem qualquer publicidade".
O caso gerou reações políticas intensas. Questionado sobre medidas para proteger mulheres da violência, o chefe de governo alemão, Friedrich Merz, causou polêmica ao afirmar que uma "parte considerável desta violência procede das comunidades de imigrantes", em uma tentativa de frear o avanço da extrema direita. Lydia Dietrich, diretora da associação feminista Frauenhilfe München, classificou a declaração como "uma mentira populista escandalosa" durante o ato de apoio a Fernandes em Munique.
Paralelos com casos internacionais e impacto social
Alguns meios de comunicação alemães traçaram paralelos entre o caso de Fernandes e o da francesa Gisèle Pelicot, que se tornou símbolo global da luta contra violência sexual após denunciar estupros cometidos por dezenas de homens recrutados por seu ex-marido. Ambos os casos destacam a vulnerabilidade das vítimas em contextos de abuso sistemático e a necessidade de respostas jurídicas eficazes.
O escândalo tem impulsionado uma nova onda do movimento #MeToo na Alemanha, agora com foco no abuso online e na violência digital, reforçando demandas por legislação específica e maior conscientização sobre os riscos das tecnologias emergentes.



