Haitianos com vistos falsificados enfrentam retenção em Viracopos e buscam recomeço no Brasil
Um voo fretado da Aviatsa, procedente de Cabo Haitiano, pousou no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP), na manhã de quinta-feira (12), transportando 120 passageiros haitianos. Durante o controle migratório realizado pela Polícia Federal, foi identificado que 118 deles apresentavam vistos eletrônicos de reunião familiar falsificados, conforme informou o Ministério das Relações Exteriores. A medida administrativa de inadmissão foi aplicada, resultando na retenção do grupo, que inicialmente permaneceu por dez horas dentro da aeronave e, posteriormente, foi transferido para uma sala reservada do terminal, onde dormiram em cadeiras e colchões.
Desespero e esperança: a jornada de uma família haitiana
Entre os passageiros retidos, Sadrack Joseph, de 34 anos, estava ao lado da esposa e do filho. Ele relatou um profundo desespero com a possibilidade de ter de retornar ao Haiti, país que enfrenta uma grave crise humanitária, marcada por violência de gangues, instabilidade política e escassez de alimentos e medicamentos. Após uma longa espera, a família conseguiu a entrada oficial no Brasil, exibindo com orgulho o documento de autorização. Eles deixaram Campinas e seguiram para Curitiba (PR), acompanhados por Mesguet Meus, um haitiano que vive há 13 anos no Brasil e os recebeu como parentes. "Eu sou pedreiro, construí minha casa, tenho dois filhos nascidos aqui", contou Meus, exemplificando a integração possível.
Sadrack Joseph expressou alívio e felicidade por estar no Brasil, um país do qual ouviu falar bastante, e afirmou que seu objetivo agora é trabalhar e reconstruir a vida. Enquanto isso, equipes de uma ONG de Jundiaí (SP) se mobilizaram para oferecer acolhimento, preparando chalés individuais para famílias, com janta e privacidade, a fim de evitar que passassem mais noites no aeroporto. A organização busca mais voluntários para auxiliar durante o fim de semana, diante do elevado número de haitianos e do processo burocrático demorado.
Investigação por contrabando de migrantes e liberação de crianças
A Polícia Federal anunciou que irá investigar a companhia aérea Aviatsa por contrabando de migrantes, crime previsto no Artigo 232-A do Código Penal, com pena de 2 a 5 anos de reclusão. A corporação destacou que a responsabilidade pelo retorno dos passageiros inadmitidos ao ponto de origem é da transportadora, que também deve verificar a documentação pré-embarque. A Aviatsa, em nota, repudiou a condução da operação, alegando que os passageiros buscavam solicitar refúgio ou proteção migratória, direitos assegurados pela legislação brasileira, e que estavam devidamente identificados com passaportes válidos.
Na tarde de sexta-feira (13), duas crianças haitianas, de 8 e 14 anos, foram liberadas por estarem com vistos regulares. Elas foram as primeiras a deixar o terminal após mais de 24 horas, acompanhadas pela tia, que tem pedido de refúgio em processamento. Louis Yinder, haitiano residente em Santa Catarina, aguardava por elas. No entanto, outras 116 pessoas permanecem na sala restrita, aguardando regularização. Agentes do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) chegaram para prestar apoio, e a Polícia Federal esclareceu que ninguém mais solicitou refúgio até o momento.
Crise humanitária no Haiti impulsiona migração
O Haiti vive uma das crises humanitárias mais graves do mundo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). O país está sem governo desde 2016, sem eleições regulares, e sofre com uma onda de violência das gangues, instabilidade política e uma profunda crise econômica. Essa situação desesperadora tem levado muitos haitianos a buscar refúgio em outros países, como o Brasil, onde o fluxo migratório regular inclui cerca de 600 passageiros por semana em Viracopos, conforme a Polícia Federal.
O Itamaraty ressaltou que os vistos falsificados apresentados não tiveram origem em nenhum órgão do ministério, e que o visto de reunião familiar pode ser emitido eletronicamente após averiguação documental. Enquanto isso, a comunidade local e organizações não governamentais continuam a oferecer suporte, destacando a importância da dignidade humana e da proteção internacional aos refugiados em meio a este cenário complexo e desafiador.
