Cidadania europeia atrai brasileiros em busca de estabilidade e reconexão familiar
O interesse de brasileiros pela cidadania europeia tem crescido de forma consistente, revelando um movimento que combina planejamento de vida, busca por estabilidade e reconexão com a história familiar. Este fenômeno se intensifica especialmente em regiões como a Baixada Santista, marcadas pela forte presença de descendentes de imigrantes.
Especialista analisa aumento da procura
O tema foi debatido no podcast Baixada em Pauta, apresentado pelo jornalista Matheus Müller, que recebeu o advogado Fábio Gioppo, especialista em direito internacional e imigração. Segundo Gioppo, a demanda acompanha momentos de instabilidade no Brasil e reflete diretamente nas decisões familiares, principalmente quando envolvem futuro profissional e segurança jurídica.
"Toda vez que você tem uma mudança no governo, toda vez que você tem algum impacto na economia, é óbvio que a procura acaba aumentando muito mais", afirmou o especialista.
Além do contexto econômico e político, o advogado destacou que a cidadania deixou de ser vista apenas como um facilitador de viagens. Ela representa acesso a direitos fundamentais, oportunidades educacionais, estrutura previdenciária e a possibilidade concreta de residir legalmente em outro país.
Resgate das origens familiares
Outro fator significativo apontado é o resgate das origens familiares. Muitos brasileiros têm revisitado a própria história e identificado que o direito à cidadania europeia sempre existiu, mas nunca foi exercido por falta de informação ou orientação adequada.
Regras e custos da cidadania portuguesa
A cidadania portuguesa segue um modelo administrativo e possui limite de gerações bem definido:
- O direito é transmitido a filhos e netos de portugueses
- Para bisnetos, o reconhecimento só é possível se o ascendente direto (pai ou mãe, neto do português) tiver a cidadania reconhecida em vida
- Caso esse elo se perca, o direito deixa de existir - situação que Gioppo considera irreversível
Do ponto de vista documental, o processo é menos complexo que o italiano. São exigidas, em regra, a certidão do ascendente português e as certidões do requerente. Os prazos variam significativamente:
- Filhos podem obter a cidadania em poucos meses
- Processos de netos podem levar vários anos
Os custos dependem da situação documental e da necessidade de busca de registros, mas, de forma geral, o investimento costuma ficar entre R$ 5 mil e R$ 8 mil.
Cidadania italiana: momento de cautela
A cidadania italiana vive um momento mais sensível atualmente. Hoje, o reconhecimento ocorre exclusivamente pela via judicial, e uma nova lei italiana tenta impor restrições ao direito, atualmente questionadas por especialistas.
Gioppo recomenda atenção redobrada: "o momento agora é de cautela". Por se tratar de um processo judicial, não há garantia absoluta de resultado, embora ainda existam decisões favoráveis.
Diferentemente da portuguesa, a cidadania italiana, do ponto de vista jurídico defendido por advogados, não possui limite de gerações, pois é entendida como direito originário vinculado ao nascimento. Isso permite a reconstrução documental mesmo quando os registros são antigos ou incompletos.
O custo do processo costuma ser mais elevado. Para um requerente individual, o investimento pode girar em torno de R$ 25 mil a R$ 28 mil, variando conforme a geração e a complexidade documental. Processos em grupo familiar podem reduzir significativamente esse valor.
Falta de documentos não impede processo
A ausência de certidões não inviabiliza automaticamente um pedido de cidadania italiana. Segundo Gioppo, há um trabalho especializado de genealogia e pesquisa histórica que permite reconstruir a árvore familiar.
Este trabalho envolve análise de:
- Hábitos culturais
- Sotaques regionais
- Costumes familiares
- Fatores geográficos
Em muitos casos, nascimentos são comprovados por certidões de batismo, já que os registros civis eram tardios ou inexistentes no período da imigração. Também são frequentes erros de grafia nos documentos, problemas que exigem retificações administrativas ou judiciais antes do reconhecimento da cidadania.
A busca pela cidadania europeia representa, portanto, não apenas uma estratégia de mobilidade internacional, mas também uma jornada de redescoberta das próprias raízes familiares e culturais.



