Brasileiros na Espanha têm nova chance de regularizar situação migratória
O governo espanhol anunciou uma medida que pode mudar a vida de milhares de brasileiros que vivem em situação irregular no país. A curitibana Fátima, de 45 anos, é uma das que aguardam ansiosamente pela oportunidade de legalizar sua permanência em Madri, onde vive desde julho do ano passado.
Uma nova esperança para imigrantes
No final de janeiro, o primeiro-ministro Pedro Sánchez anunciou um processo extraordinário de regularização para imigrantes e solicitantes de asilo que já residem na Espanha. De acordo com relatório da Fundação Espanhola de Pesquisa Econômica e Social, aproximadamente 800 mil pessoas poderão ser beneficiadas pela iniciativa.
"Entrei na Espanha como turista, mas já sabia que queria ficar", conta Fátima, que atualmente trabalha limpando casas e preparando comida brasileira. "Gostei muito daqui e pretendo continuar morando em Madri, só que legalmente. Com a regularização, vou conseguir melhores oportunidades de emprego e poder viajar para outros países da Europa."
Requisitos e benefícios da medida
Os pedidos de regularização poderão ser apresentados entre abril e 30 de junho deste ano. Para ter o pedido aceito, é necessário:
- Ter entrado na Espanha antes de 31 de dezembro de 2025
- Residir no país há pelo menos cinco meses
- Não possuir antecedentes criminais
A autorização concedida permitirá trabalhar legalmente em qualquer região espanhola por pelo menos um ano. Embora não garanta cidadania, concede autorização temporária de trabalho sem restrições por nacionalidade.
Impacto na comunidade brasileira
Felipe, mineiro que vive há dez anos na Espanha, também pretende solicitar a regularização após três tentativas frustradas de obter documentação. "Depois de todo esse tempo sem poder voltar ao Brasil porque estou sem documentos aqui, estava até pensando em desistir de viver na Espanha", revela. "Quero muito dar entrada nessa regularização para viajar ao Brasil e depois voltar sem problemas."
Thaís de Camargo, advogada brasileira especialista em imigração, explica que a medida traz vantagens tanto para imigrantes quanto para o governo espanhol: "Com esse decreto, milhares de imigrantes vão sair da informalidade pagando impostos e contribuindo para o crescimento da economia. Mais gente com contrato formal significa mais pessoas com condição financeira para consumir."
Contexto político e econômico
A medida foi aprovada por decreto real após acordo entre o governo de centro-esquerda de Pedro Sánchez e o partido Podemos, evitando votação tradicional no Parlamento. Partidos de direita criticam a iniciativa, argumentando que pode funcionar como incentivo à imigração irregular.
Lucila Rodríguez Alarcón, diretora da Fundação Por Causa, destaca o contexto demográfico: "Precisamos da imigração, já que nossa população está cada vez mais envelhecida e tem, a cada ano, menos filhos."
Crescimento da mão de obra estrangeira
Segundo dados do Ministério da Inclusão, Segurança Social e Migrações, em 2025 a mão de obra estrangeira representou mais de 14% dos trabalhadores registrados na Espanha, um aumento de 6% em relação ao ano anterior.
"Esse balanço mostra que a contribuição dos estrangeiros é estrutural e decisiva para o crescimento do emprego, a sustentabilidade do sistema de aposentadorias e a prosperidade compartilhada do nosso país", afirmou a ministra Elma Saiz.
Dados dos Serviços Europeus de Emprego indicam alta demanda tanto por profissionais qualificados nas áreas de tecnologia, engenharia e saúde quanto por trabalhadores nos setores de serviços, hotelaria, transporte e construção.
Contraste com políticas europeias
A política espanhola contrasta com o endurecimento das regras migratórias adotado por países como Reino Unido, Portugal, Itália e Grécia. A Espanha já realizou regularizações migratórias em outros períodos, sob governos de diferentes orientações políticas.
Para Thaís de Camargo, a regularização tem impacto social profundo: "Ao viver legalmente em um país, os imigrantes podem andar na rua sem medo e de cabeça erguida. Todos terão seus direitos preservados e respeitados. É uma medida, acima de tudo, de direitos humanos."



