Brasileira detida pelo ICE relata abusos psicológicos e maus-tratos em prisão nos EUA
Brasileira detida pelo ICE relata abusos e maus-tratos nos EUA

Brasileira detida pelo ICE relata abusos psicológicos e maus-tratos em prisão nos Estados Unidos

A brasileira Michele Patrícia Vieira, de 39 anos, viveu uma experiência traumática após ser detida pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) em Orlando, na Flórida. Com um pedido de asilo em andamento, ela foi abordada por agentes enquanto dirigia para o trabalho, sem cometer qualquer infração de trânsito. Michele relata que foi tratada como criminosa desde o primeiro momento, sendo algemada e submetida a condições degradantes durante sua detenção.

Detenção e condições insalubres na prisão

Após a abordagem, Michele foi levada para a sede do ICE, onde ficou por três dias, e depois transferida para uma cadeia por mais três dias. Durante esse período, ela enfrentou situações extremas: ficou seis dias sem tomar banho, teve acesso limitado a água potável e foi obrigada a comer alimentos de má qualidade, incluindo pão embolorado. A comida, segundo ela, sempre apresentava cheiro ruim e aspecto azedo, indicando falta de higiene e armazenamento inadequado.

Em seguida, Michele foi encaminhada para uma cadeia em Jacksonville, exclusiva para detidos por questões de imigração, onde permaneceu por mais oito dias. Embora as instalações fossem mais novas, as condições continuaram precárias, com roupas de cama inadequadas e comida considerada péssima. Ela descreve que, durante todo o tempo, foi mantida algemada na cintura, braços e pés, inclusive para dormir e comer.

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Pressão psicológica e tentativas de deportação

Além dos maus-tratos físicos, Michele sofreu abuso psicológico por parte dos agentes do ICE. Eles pressionavam diariamente para que ela assinasse um documento autorizando sua deportação voluntária para o Brasil. Segundo ela, essa mesma proposta foi oferecida a outras 12 pessoas detidas no mesmo dia, mas Michele foi a única a recusar, mantendo-se firme em sua decisão de não assinar.

Os agentes chegaram a afirmar que seu marido já havia sido preso e assinado o acordo, em uma tentativa de coagir Michele a desistir de seu pedido de asilo. No entanto, ela resistiu, confiante em sua documentação e no apoio da família. Para manter contato com os entes queridos, Michele utilizou tablets para videochamadas em Jacksonville, após ter direito a ligações telefônicas limitadas na cadeia anterior.

Custos legais e situação atual do asilo

Para cobrir os custos da fiança de US$ 6.500, além de despesas com advogada, tradução de documentos e outras taxas, a família de Michele criou uma campanha online de arrecadação. Foram coletados US$ 7,5 mil, metade do total de US$ 13 mil gastos. Michele foi liberada em 17 de fevereiro, mas seu pedido de asilo continua em análise, com duas audiências futuras agendadas para apresentar seus motivos e documentação.

Ela expressa perplexidade com a situação, questionando por que foi presa inicialmente se, após pagar a fiança, pode circular livremente. Michele também teme pela segurança de sua família, que ainda corre risco de detenção. Originária de Sorocaba, no interior de São Paulo, ela se mudou para os EUA há quatro anos com o marido e os dois filhos, buscando segurança após sofrer ameaças no Brasil.

Críticas ao sistema de imigração e reflexões

Michele critica o tratamento desumano do ICE, embora concorde com a deportação de imigrantes envolvidos em atividades criminosas. Ela enfatiza que muitos imigrantes, incluindo brasileiros, buscam apenas uma vida melhor para suas famílias, sem intenções ilegais. Em nota, o Itamaraty informou que a rede consular brasileira nos EUA está disponível para assistir cidadãos detidos, respeitando a privacidade e a legislação local. O ICE não se pronunciou sobre o caso até o fechamento desta reportagem.

A experiência de Michele destaca os desafios enfrentados por imigrantes em processos de asilo e a necessidade de seguir rigorosamente as regras do país para garantir um futuro estável. Sua história serve como alerta para outros brasileiros que buscam refúgio nos Estados Unidos, reforçando a importância de documentação adequada e apoio legal.

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