Brasil bate recorde com mais de 546 mil afastamentos por saúde mental em 2025
Recorde de afastamentos por saúde mental no Brasil em 2025

Brasil atinge marca histórica com mais de 546 mil afastamentos por saúde mental em 2025

O Brasil registrou um número alarmante de afastamentos do trabalho por questões de saúde mental no ano de 2025, superando todas as marcas anteriores. Segundo dados exclusivos obtidos pelo g1 junto ao Ministério da Previdência Social, foram mais de 546.254 afastamentos relacionados a transtornos mentais, representando um aumento expressivo de 15% em comparação com o ano anterior. Esta é a segunda vez consecutiva que o país bate esse recorde negativo, após já ter alcançado o maior índice da década em 2024.

Profissões mais afetadas e perfil dos trabalhadores

Um levantamento detalhado, elaborado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em parceria com o Ministério Público do Trabalho (MPT) e baseado em dados do INSS, analisou mais de duas mil profissões para entender como esse cenário se distribui. O estudo, que considera o período entre 2012 e 2024, revela que as ocupações no topo da lista incluem vendedor do comércio varejista, faxineiro, auxiliar de escritório, assistente administrativo e alimentador de linha de produção.

Especialistas destacam que essas profissões compartilham características comuns, como contratos frágeis, pressão por metas, jornadas de trabalho prolongadas e maior exposição a riscos, incluindo a violência urbana. Raymundo Lima Ribeiro Júnior, procurador do MPT, explica que "as categorias que têm contratos mais precários e rotatividade alta são as mais atingidas", somando-se a um volume imenso de trabalho que afeta a saúde mental.

Causas estruturais e impacto econômico

Odete Cristina Pereira Reis, auditora fiscal do trabalho responsável pela Coordenação Nacional de Fiscalização em Riscos Psicossociais, avalia que o ranking revela um padrão preocupante. Ela aponta que "nessas profissões, os trabalhadores têm pouca autonomia para realizar o seu trabalho", o que pode levar ao estresse e ao adoecimento mental. Os especialistas citam fatores como relações precárias de trabalho, medo do desemprego, profissões ligadas a metas de desempenho, volume excessivo de trabalho e exposição à violência.

Os transtornos ansiosos lideram as causas de afastamento, com 166.489 licenças concedidas em 2025, seguidos por episódios depressivos, que somaram 126.608 casos. Outras condições incluem transtorno bipolar, dependência química e estresse grave. O impacto econômico é significativo: estima-se que as licenças por saúde mental tenham custado quase R$ 4 bilhões em 2025, com as mulheres representando quase 63% dos afastamentos, apesar de receberem salários médios ligeiramente inferiores aos dos homens.

Contexto global e medidas regulatórias

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 12 bilhões de dias úteis sejam perdidos globalmente a cada ano devido à depressão e ansiedade, com uma perda econômica de US$ 1 trilhão. No Brasil, a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que deveria incluir riscos psicossociais, foi adiada após pressão de empresas, com novo prazo estabelecido para maio. O Ministério do Trabalho afirmou que não haverá nova prorrogação, mas a implementação enfrenta resistência.

Wagner Gattaz, psiquiatra especialista em trabalho, alerta que os transtornos mentais representam um custo de 6% da folha de pagamento em algumas empresas, exigindo medidas urgentes. Os dados, disponíveis na plataforma SmartLab, mostram que a saúde mental tornou-se uma questão crítica não apenas de saúde pública, mas também econômica, refletindo desafios profundos na organização do trabalho no país.