Quatro em cada dez brasileiros estão na informalidade, aponta pesquisa
A informalidade voltou a dar as caras com força nos dados da PNAD Contínua divulgada nesta quinta-feira: 38,1% dos ocupados em 2025 estão fora da carteira assinada. Em bom português, quase quatro em cada dez brasileiros trabalham sem CLT. O número ajuda a explicar por que o discurso de "pleno emprego" soa, no mínimo, otimista demais. Emprego existe — mas boa parte dele é precário, instável e sem proteção social adequada.
Rombo fiscal e impacto nas contas públicas
O problema vai além do mercado de trabalho e entra direto nas contas públicas. Bruno Andrade, repórter de finanças da Veja Negócios, chama atenção para o efeito imediato: menos gente contribuindo para o INSS significa menos dinheiro entrando para pagar aposentadorias e benefícios. E vale lembrar que a Previdência já consome quase 50% das despesas obrigatórias do governo.
"Isso pode aumentar também a questão do próprio rombo fiscal", alerta o especialista. Traduzindo: o governo tenta equilibrar as contas, mas a base de arrecadação encolhe quando quase 40% da força de trabalho não contribui regularmente.
Custos silenciosos para o trabalhador
Do ponto de vista do trabalhador, o custo é silencioso — e alto. Sem contribuição regular, ele perde acesso a benefícios essenciais como:
- Auxílio-doença
- Auxílio-maternidade
- Proteção previdenciária futura
No futuro, muitos podem acabar dependendo do Benefício de Prestação Continuada, que é assistencial e bancado pelo Tesouro, sem contribuição prévia. Ou seja, a conta volta para o orçamento público, criando um ciclo vicioso de pressão fiscal.
Por que formalizar é tão caro no Brasil?
Para o economista e CEO da Corano Capital, Bruno Corano, o Brasil convive historicamente com esse problema porque formalizar é caro demais. "Incorporar um funcionário legalmente é muito oneroso", afirma, citando a carga tributária elevada tanto para empregadores quanto para empregados.
Ele também aponta o avanço dos aplicativos de transporte e entrega como fator que impulsiona esse modelo mais flexível — e menos protegido. A ascensão da economia de plataformas cria novas formas de trabalho que muitas vezes escapam à regulamentação tradicional.
Problema estrutural e regionalizado
Há ainda uma distorção nos indicadores oficiais. Corano argumenta que a metodologia considera ocupadas pessoas que, na prática, estariam subempregadas. Isso ajuda a derrubar a taxa de desemprego, que está em mínimas históricas em vários estados, mas mascara a fragilidade real do mercado de trabalho.
Em unidades federativas como Maranhão (58,7%), Pará e Bahia, a informalidade supera 50% — um sinal claro de que o problema é estrutural e profundamente regionalizado. Enquanto algumas regiões apresentam indicadores mais favoráveis, outras enfrentam desafios históricos de desenvolvimento econômico e formalização.
Pressão fiscal e futuro incerto
No fim das contas, a informalidade é um daqueles números que parecem técnicos, mas contam uma história simples: o Brasil trabalha muito, mas contribui pouco para sustentar o próprio sistema de proteção social. E, sem enfrentar o custo da formalização e a complexidade tributária, o país seguirá enxugando gelo — comemorando emprego de um lado e acumulando pressão fiscal do outro.
A pesquisa PNAD Contínua revela um retrato preocupante do mercado de trabalho brasileiro, onde a quantidade de postos não se traduz necessariamente em qualidade de emprego ou segurança social para milhões de cidadãos.



