Fim da escala 6×1: quem realmente pagará a conta bilionária?
A proposta de reduzir a jornada de trabalho semanal e eliminar a escala 6×1, transformada em aposta eleitoral pelo governo Lula, enfrenta críticas severas de economistas. Embora conte com apoio popular de 73% dos brasileiros, especialistas alertam para custos bilionários às empresas, possível queda do Produto Interno Bruto (PIB) e desafios estruturais como a baixa produtividade nacional.
O apelo popular e os números sedutores
Desde a Constituição de 1988, que estabeleceu a jornada máxima de 44 horas semanais, movimentos sindicais e parlamentares buscam novas reduções. Agora, em ano eleitoral, o tema ganhou força política inédita. O presidente Lula declarou que "não é justo que uma pessoa trabalhe duro toda a semana e tenha apenas um dia para descansar", posicionando o fim da escala 6×1 como prioridade governamental para 2026.
Pesquisa da agência Nexus revela que 73% dos entrevistados apoiam a medida, desde que mantido o mesmo salário. Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que, dos 44 milhões de trabalhadores com carteira assinada no Brasil, 75% têm contratos de 44 horas ou mais semanais, criando uma base eleitoral significativa.
Os custos ocultos e os riscos econômicos
Por trás do apelo popular, escondem-se cálculos econômicos alarmantes. Helio Zylberstajn, professor da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo, adverte: "As empresas vão ter que se virar. Cedo ou tarde, o ajuste será contratar gente com salário mais baixo ou substituir trabalho formal pelo informal ou por máquinas".
Simulação do economista Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), projeta queda do PIB em 2,6% com jornada de quarenta horas e impressionantes 7,4% com teto de 36 horas semanais. "É como perder dois anos bons de crescimento econômico", explica Duque.
Impactos setoriais e pressões inflacionárias
O estudo do Ipea estima aumento de até 17% no custo médio do trabalho com carteira assinada no cenário de 36 horas semanais. Setores mais dependentes de mão de obra e empresas menores seriam os mais afetados, com mais de 90% de suas contratações acima de quarenta horas.
A Confederação Nacional da Indústria alerta para custos adicionais anuais de R$ 444 bilhões para indústria, comércio e serviços na hipótese de jornada de quarenta horas. No transporte, que funciona de domingo a domingo, o presidente da Confederação Nacional do Transporte, Vander Costa, prevê: "Vamos passar o custo para frente, para o consumidor, e isso vai gerar inflação".
Desafios estruturais do Brasil
O sociólogo José Pastore, especialista em economia do trabalho, destaca que "a nossa produtividade é muito baixa e está estagnada há décadas". Atualmente, um trabalhador brasileiro produz em média o equivalente a 21 dólares por hora, bem menos que os 34 dólares do Chile e apenas um quinto dos 82 dólares dos Estados Unidos.
Outra barreira brasileira são os altos encargos trabalhistas, que custam às empresas 102% da folha de pagamento, comparados a 70% na França e cerca de 10% nos Estados Unidos e Japão. O governo Lula não sinalizou alívio nesse fardo como compensação pela redução da jornada.
Experiências internacionais e casos nacionais
Entre países desenvolvidos, França (35 horas), Austrália (38) e Irlanda (39) estabeleceram limites abaixo das quarenta horas desde os anos 2000. Na América Latina, Colômbia (42 horas em 2021) e Chile (40 horas em 2023) implementaram reduções graduais.
No Brasil, algumas empresas já adotaram voluntariamente a escala 5×2 para atrair candidatos, como o hotel Copacabana Palace no Rio e a rede de supermercados Pague Menos. Porém, para muitas outras, a mudança imposta representa desafios significativos.
Consequências práticas para empresas
Yorki Estefan, sócio-diretor da construtora Conx de São Paulo, com 300 funcionários em obras, vislumbra "aumento de custo ou atraso nas entregas se tiver de reduzir a jornada. Não tenho como construir em menos dias aquilo que leva seis para ser feito".
Na agroindústria São Salvador Alimentos de Goiânia, com mais de 80% do efetivo na escala 6×1, Vinícius Vieira, encarregado da gestão de pessoas, teme um "desastre" e relata dificuldades: "Para manter a produção, teria de contratar mais gente. Mas temos 700 vagas abertas sem conseguir preencher".
O debate necessário sobre flexibilidade
Helio Zylberstajn critica o "engessamento" das propostas atuais: "Uma coisa é estabelecer um limite de horas por um período, outra é você enrijecer o uso desse tempo. O ideal é que as partes se entendam na distribuição dele".
Em países nórdicos como Noruega, Suécia e Finlândia, onde as pessoas trabalham cerca de trinta horas semanais, as reduções foram "graduais, negociadas e coordenadas por meio de acordos coletivos, não impostas da noite para o dia por lei", conforme explica o economista finlandês Petri Böckerman do IZA.
O debate sobre redução da jornada no Brasil precisa considerar não apenas o apelo político imediato, mas as consequências econômicas de longo prazo, a baixa produtividade nacional e os altos encargos trabalhistas que diferenciam o país de outras nações que implementaram mudanças similares.



