Fim da escala 6x1? Entenda o debate que divide trabalhadores e empresários em Mato Grosso
A escala 6 por 1, modelo de jornada em que o trabalhador atua seis dias consecutivos e descansa apenas um, voltou ao centro das discussões nacionais com propostas que podem alterar radicalmente a distribuição da carga horária. Em Mato Grosso, a polarização é evidente: de um lado, trabalhadores que relatam exaustão física e emocional; de outro, empresários que alertam para potenciais aumentos de custos e perda de competitividade.
O sofrimento dos trabalhadores: relatos de burnout e limitações diárias
Um trabalhador que vivencia a escala seis por um e preferiu não ter sua identidade divulgada defendeu a reavaliação urgente do modelo no Brasil. Ele afirmou que o único dia de folga é insuficiente para um descanso adequado, sendo consumido por tarefas pendentes ou pelo cansaço acumulado. "Cheguei a pedir demissão de um emprego anterior, também com escala seis por um, após ser diagnosticado com princípio de burnout", revelou. Para ele, a rotina exige planejamento constante e limita até atividades simples do cotidiano.
Marli Nato Ferreira, analista comercial de 34 anos, compartilhou experiências semelhantes. Ela destacou que o ritmo de trabalho resulta em alimentação inadequada e afeta sua saúde. Mesmo no dia de folga, Marli continua com tarefas domésticas e usa o tempo que seria de descanso para resolver demandas como compras semanais e consultas médicas. "Essa escala é um pouco exaustiva, né? A sobrecarga de trabalho é prejudicial à saúde física e emocional", declarou.
Jovens trabalhadoras também expressaram suas dificuldades. Eduarda Almeida Alves da Silva, de 19 anos, e Gabrielly da Silva Cruz, de 20 anos, funcionárias de uma loja de chocolates em Cuiabá, relataram que o pouco tempo livre é usado para descansar e dedicar-se à faculdade. "Quem não vive a escala 6 por 1 muitas vezes não entende o quanto é puxado", afirmou Gabrielly.
A visão dos empresários: alertas sobre custos e competitividade
A Federação das Associações Comerciais e Empresariais de Mato Grosso (FACMAT) posicionou-se contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 148/2015, que prevê a redução da jornada de trabalho. A entidade argumenta que a mudança, sem medidas compensatórias, pode aumentar custos, afetar empregos e reduzir a competitividade, especialmente em regiões e setores mais vulneráveis.
Jonas Alves, presidente da FACMAT, declarou em nota: "É evidente que todos desejamos estar mais perto de nossas famílias e ter melhor qualidade de vida. Entretanto, a simples redução da jornada, sem análise ampla dos impactos, definitivamente não é a solução". A federação ressalta que o desenvolvimento econômico do estado depende fortemente de atividades que exigem operação contínua e capacidade de resposta rápida às oscilações do mercado.
Em contrapartida, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) apresentou dados que mostram menor resistência entre empreendedores. Segundo pesquisa realizada entre novembro e dezembro de 2024, 47% dos donos de micro e pequenas empresas avaliam que a medida não teria impacto sobre seus negócios. Apenas 32% acreditam que seria prejudicial.
A Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso (Fiemt) expressou preocupação com a possível redução da jornada para 40 horas semanais. A entidade estima que, para manter o nível de produção, o custo da folha de pagamento pode subir R$ 5,1 bilhões com horas extras ou R$ 3,4 bilhões com novas contratações. Um estudo do Instituto Euvaldo Lodi (IEL) apontou que 82,61% dos dirigentes sindicais industriais percebem impacto negativo na produtividade com a alteração da jornada.
A perspectiva sindical: defesa da qualidade de vida e produtividade
O presidente do Sindicato do Comércio de Cuiabá, Olavo Dourado Boa Sorte Filho, criticou a escala 6x1 por considerar que faz o trabalhador ultrapassar as 44 horas semanais previstas em lei. "Já está provado que dá certo em vários países desenvolvidos. O trabalhador brasileiro não tem medo de trabalhar, mas com uma qualidade melhor de saúde, ele trabalha com mais alegria e produz mais", afirmou.
Impactos na saúde: especialista alerta para riscos de adoecimento
Dr. Rodrigo Brito, psicólogo e doutor em Estudos de Linguagem pela UFMT, explicou que o regime de trabalho impacta diretamente no desenvolvimento humano. "A escala 6x1 é um modelo que tende a aumentar os riscos de adoecimento do trabalhador com quadros de estresse, transtornos de ansiedade e a Síndrome de Burnout", destacou. Ele também frisou que esse tipo de escala limita o crescimento pessoal, como estudos e relações interpessoais.
Brito ainda esclareceu que um dia a mais de descanso pode melhorar a produtividade. "A mudança pode resultar no aumento da motivação, da criatividade, da sociabilidade e do convívio familiar, trazendo resultados positivos em vários campos da vida".
O que propõem as mudanças em tramitação
O governo federal anunciou que deve enviar ao Congresso Nacional um Projeto de Lei (PL) em regime de urgência para acelerar a tramitação. A proposta prevê a fixação da jornada em, no máximo, 40 horas semanais, com escala de cinco dias de trabalho e duas folgas, sem redução salarial.
A discussão ganhou força em 2025 com a apresentação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP), impulsionada pela mobilização do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT). O texto foi encaminhado à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados em fevereiro. No Senado, uma proposta semelhante foi aprovada em dezembro na CCJ, após dez anos travada na Casa.
O que é a escala 6x1?
A escala 6 por 1 é uma jornada de trabalho onde o funcionário atua por seis dias consecutivos e descansa um, totalizando 44 horas semanais, conforme a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Comum em comércios e restaurantes, a folga varia, mas garante um domingo de descanso no mês. É frequentemente chamada de "escala de revezamento" ou "trabalho 6 dias por 1 folga".



