Liquidação do Will Bank: o que acontece agora com investimentos, dívidas e crédito
A liquidação decretada pelo Banco Central interrompe as operações do banco digital controlado pelo Master e ativa a proteção do Fundo Garantidor de Crédito. O cenário afeta milhões de clientes de renda média e baixa, gerando dúvidas urgentes sobre o destino de seus recursos financeiros.
Um banco digital com controle em apuros
Criado com um discurso de inclusão financeira, o Will Bank se posicionou como uma porta de entrada para o sistema bancário formal, oferecendo serviços como cartões de crédito, contas de pagamento, crédito pessoal e CDBs com rendimentos competitivos. No entanto, sua estrutura ocultava uma dependência crítica do Banco Master, uma instituição pequena com ambições que superavam sua capacidade financeira.
Quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro de 2025, optou por uma solução intermediária para sua controlada digital. O Master Múltiplo passou a operar sob o Regime Especial de Administração Temporária, numa tentativa de preservar o funcionamento do Will Bank e viabilizar sua venda a um novo investidor.
Houve negociações com um grupo estrangeiro de origem árabe, mas o negócio não se concretizou. Sem capital novo e com o controlador já em liquidação, a margem de manobra se estreitou rapidamente. O ponto de não retorno ocorreu em 19 de janeiro de 2026, quando a Will Financeira deixou de honrar compromissos no arranjo de pagamentos da Mastercard Brasil.
O bloqueio foi imediato, e sem acesso ao sistema de cartões, que era central para sua operação, a instituição perdeu capacidade operacional e credibilidade. Dois dias depois, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial, citando insolvência, deterioração econômico-financeira e o vínculo incontornável com o Banco Master já liquidado.
Impactos imediatos para clientes
Com a liquidação, as atividades do Will Bank são interrompidas de forma abrupta. Contas correntes e de pagamento deixam de funcionar, cartões de crédito são suspensos e as chaves Pix perdem validade, já que a instituição é retirada do Sistema de Pagamentos Instantâneos.
O dinheiro não desaparece, mas fica congelado enquanto o liquidante apura valores e organiza a fila de pagamentos. Para correntistas e investidores, a principal rede de proteção é o Fundo Garantidor de Créditos.
O FGC cobre até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição, incluindo o principal e os rendimentos acumulados até o dia da liquidação. Instrumentos como CDBs, RDBs, LCIs e LCAs são elegíveis para essa cobertura.
Acima desse teto, o valor excedente vira crédito residual a ser eventualmente pago no processo de liquidação, normalmente com uma baixa taxa de recuperação. Não há um prazo legal fixo para o início dos pagamentos, mas a experiência recente indica algo em torno de 30 dias, com valores atualizados pela Taxa Referencial.
O FGC também faz um alerta recorrente: não há intermediários nem taxas para receber o dinheiro garantido. Qualquer proposta de aceleração do pagamento deve ser vista como uma possível fraude.
Dívidas permanecem válidas
A liquidação não perdoa dívidas. Quem contratou crédito consignado continuará vendo o desconto em folha normalmente, com os valores direcionados à massa liquidante. Em casos de empréstimos pessoais, financiamentos ou cartões de crédito, o liquidante – no caso, a EFB Regimes Especiais de Empresas – passa a emitir boletos ou instruções oficiais de pagamento.
Ignorar a cobrança não é uma opção, pois a obrigação financeira permanece válida e deve ser honrada conforme os termos originais do contrato.
Impacto no sistema financeiro brasileiro
No auge de suas operações, o Will Bank chegou a mais de 10 milhões de clientes; atualmente, o site da instituição menciona cerca de 9 milhões. Em setembro do ano passado, o banco tinha R$ 6,5 bilhões em CDBs emitidos.
Para o sistema financeiro nacional, os números são modestos: o conglomerado Master representava apenas 0,57% dos ativos do sistema. No entanto, o custo não é trivial. Estimativas indicam que a conta total para o FGC, somando a liquidação do Banco Master e agora do Will Bank, pode se aproximar de R$ 50 bilhões.
Esse evento reforça a importância da regulação prudencial e da supervisão contínua por parte do Banco Central, visando a estabilidade do setor financeiro e a proteção dos consumidores.