O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta um obstáculo significativo no Congresso Nacional para aprovar suas principais propostas de mudança na legislação trabalhista. Sem contar com os votos necessários para passar as Propostas de Emenda à Constituição (PECs) que tratam do tema, o Palácio do Planalto decidiu mudar sua estratégia e levar a discussão para as ruas.
Pressão popular como estratégia política
A bandeira do fim da escala de seis dias trabalhados para um de descanso, conhecida como 6×1, e da redução da jornada de trabalho tornou-se um dos pilares da campanha pela reeleição de Lula em 2026. A articulação política dessa pauta está sob a orientação do chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Sidônio Palmeira.
Diante da resistência parlamentar, a estratégia agora é mobilizar a população para criar uma pressão externa sobre os congressistas. A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), autora de uma das duas PECs sobre o tema, será uma das principais vozes nesse movimento. Ela planeja começar a convocar atos públicos logo após o período do Carnaval, em conjunto com integrantes do movimento Vida Além do Trabalho (VAT).
Articulação dentro do governo
O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, confirmou o plano de mobilizações. Em declarações, Boulos, que é o responsável pela ponte entre o governo federal e a sociedade civil, afirmou que o mês de maio "deve ter mobilizações em todo o país" em defesa dos direitos dos trabalhadores e pelo fim da escala 6×1.
"Nosso papel é dialogar com os mais diversos setores organizados da sociedade e trazer para dentro do Palácio do Planalto as vozes dos trabalhadores que se sacrificam em uma escala de trabalho desumana", declarou o ministro. Ele acrescentou que o trabalho de mobilização será feito em conjunto com a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, que lidera a articulação política no Congresso Nacional.
Boulos, no entanto, preferiu não esclarecer se o presidente Lula tem planos de participar pessoalmente dos atos públicos que estão sendo organizados.
Preocupação do setor empresarial
Enquanto o governo e movimentos sociais se organizam, representantes do setor produtivo manifestam preocupação com o teor das propostas. O presidente da Confederação Nacional do Comércio (CNC), José Roberto Tadros, reconheceu a legitimidade das manifestações em um regime democrático, mas fez um alerta.
Tadros argumentou que decisões com "impacto estrutural na economia e na sustentabilidade de milhões de empresas" precisam ser tomadas com base em critérios técnicos e após um diálogo equilibrado entre todas as partes envolvidas. "A pressão política não deve substituir a análise criteriosa dos efeitos sobre a inflação, o custo operacional das empresas e a manutenção dos postos de trabalho", afirmou o executivo.
A disputa pela reforma trabalhista, portanto, promete se intensificar nos próximos meses, com o governo tentando transferir para as ruas uma batalha que, por enquanto, não consegue vencer dentro das paredes do Congresso Nacional.