Recuperação judicial atinge número recorde no Brasil, com agropecuária na liderança
A recuperação judicial voltou a ocupar um lugar central no debate econômico brasileiro, e os números justificam a atenção. O país encerrou o ano de 2025 com um total impressionante de 5.680 empresas em processo de recuperação judicial, representando um salto significativo de 24,3% em comparação com o ano anterior. Esse aumento expressivo reflete as pressões financeiras que muitas organizações enfrentam em um cenário econômico desafiador.
Agropecuária lidera com índice alarmante
Quando analisamos os dados setoriais, a situação se torna ainda mais reveladora. Enquanto a média nacional é de 2,3 empresas em recuperação a cada mil, a agropecuária se destaca negativamente com um índice de 13,53 empresas por mil, muito acima da média. A indústria aparece em seguida com 6,64 empresas por mil, enquanto construção, energia e saneamento registram 4,11. Em contraste, comércio e serviços apresentam números mais baixos, com 1,81 e 1,0 por mil, respectivamente.
Essa disparidade setorial indica que empresas mais dependentes de crédito pesado ou mais vulneráveis a oscilações externas estão sentindo os efeitos da crise de forma mais intensa e precoce. Segundo especialistas, essa concentração em setores específicos não é mera coincidência, mas sim um reflexo direto das condições econômicas atuais.
Juros elevados: o denominador comum da crise
Rodrigo Gallegos, sócio da consultoria RGF, aponta que a taxa de juros elevada é o fator comum que une as empresas em dificuldades. Com a Selic girando na casa dos 15% e o crédito real variando entre 18% e 20% ao ano – podendo alcançar patamares de 25% a 30% para empresas já fragilizadas – o equilíbrio financeiro se torna praticamente impossível para muitas organizações.
Gallegos destaca que a recuperação judicial, apesar dos números alarmantes, representa uma ferramenta essencial para manter empresas em funcionamento durante períodos de aperto financeiro. Ele ressalta que esse universo de 5.680 empresas considera negócios de pequeno, médio e grande porte – aproximadamente 2,5 milhões de CNPJs que efetivamente movimentam a economia brasileira – excluindo microempreendedores individuais, microempresas e empresas estatais.
Fatores climáticos agravam situação no agro
No setor agropecuário, além da pressão financeira causada pelos juros altos, as empresas enfrentam adversidades climáticas significativas. Eventos extremos no Rio Grande do Sul e na região Centro-Oeste comprometeram safras e receitas, criando um cenário ainda mais desafiador para produtores rurais e empresas do setor.
Essa combinação de fatores – custo elevado do crédito e condições climáticas desfavoráveis – explica em grande parte o índice excepcionalmente alto de recuperações judiciais na agropecuária. A situação revela como setores tradicionalmente resilientes podem se tornar vulneráveis quando múltiplas pressões convergem simultaneamente.
Panorama econômico e perspectivas futuras
O aumento recorde nas recuperações judiciais serve como um termômetro importante da saúde econômica do país. Embora a ferramenta permita que empresas reorganizem suas dívidas e continuem operando, o crescimento acelerado no número de pedidos indica um ambiente de negócios que exige atenção constante de gestores, investidores e formuladores de políticas públicas.
Especialistas alertam que, sem uma revisão das condições de crédito e medidas de apoio setorial, especialmente para atividades mais sensíveis como a agropecuária, o cenário pode continuar desafiador nos próximos períodos. A recuperação judicial, embora necessária, representa apenas uma solução temporária para problemas estruturais que demandam abordagens mais amplas e duradouras.



