Aumento de imposto sobre eletrônicos pode gerar inflação e impactar indústria nacional
O recente aumento do imposto de importação sobre mais de mil produtos, incluindo eletrônicos, máquinas e equipamentos industriais, colocou a indústria brasileira no centro de um debate crucial — e o consumidor final no radar das possíveis consequências. Para o economista e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), André Braz, a medida apresenta dois lados bem definidos: pode oferecer fôlego a setores nacionais já estruturados, mas também pode pressionar os preços de forma generalizada se não for acompanhada de ajustes estruturais profundos. E, como bem se sabe no mundo da economia, boas intenções não pagam contas.
Indústria penalizada e riscos inflacionários
André Braz destaca que muitos dos itens afetados pela nova tarifa — como máquinas, tratores, caldeiras e robôs industriais — são componentes essenciais do índice de preços ao produtor. Em outras palavras, essas peças funcionam como engrenagens fundamentais da produção nacional. Se esses equipamentos se tornam mais caros e o Brasil não dispõe de oferta nacional suficiente ou competitiva, as empresas provavelmente continuarão importando, porém pagando valores mais elevados.
Esse custo adicional tende a ser repassado ao longo da cadeia produtiva, eventualmente chegando ao bolso do consumidor final. Atualmente, os bens duráveis registram uma alta de aproximadamente 2% em um período de 12 meses, mas o economista alerta que esse comportamento pode sofrer alterações significativas nos próximos meses, com potenciais efeitos inflacionários.
Ambiente de negócios e modernização tecnológica
Para Braz, aumentar impostos não constitui, por si só, uma política industrial eficaz. "É fundamental criar um ambiente de negócios mais saudável e competitivo", defende o especialista. Isso envolve melhorias em infraestrutura básica, como estradas em bom estado, distribuição confiável de energia a preços acessíveis e logística eficiente. Sem essas condições, a indústria brasileira continuará produzindo com custos elevados — independentemente de medidas protecionistas.
Outro ponto sensível levantado pelo economista é a modernização tecnológica. Com a elevação dos preços de eletrônicos, máquinas e equipamentos, as empresas podem ser forçadas a adiar investimentos em inovação, enquanto os consumidores pensarão duas vezes antes de trocar celulares ou notebooks. O risco é frear a produtividade justamente quando o país mais precisa ganhar eficiência para competir no mercado global.
Proteção da indústria e perspectivas futuras
No balanço final, Braz pondera que proteger setores já consolidados pode ajudar a preservar empregos e fortalecer cadeias produtivas locais. No entanto, taxar áreas onde o Brasil ainda depende fortemente de tecnologia externa, sem oferecer alternativas competitivas nacionais, pode resultar apenas em aumento generalizado de custos e inflação espalhada por toda a economia.
A medida governamental pode representar um empurrão para a indústria nacional — ou um tropeço significativo. Tudo dependerá do que vier acompanhado no pacote de políticas públicas, incluindo investimentos em infraestrutura, incentivos à inovação e reformas que melhorem o ambiente de negócios. O desafio, portanto, é equilibrar proteção tarifária com competitividade real, evitando que o consumidor brasileiro arque com o peso de decisões mal calibradas.



