FedEx encerra operações de entregas domésticas no Brasil após quase quatro décadas
A empresa americana gigante de logística e transporte expresso, FedEx, anunciou oficialmente que vai descontinuar todas as suas operações de entregas domésticas porta a porta no território brasileiro. A decisão, que deve ser implementada integralmente até o mês de setembro, marca o fim de uma trajetória de quase 40 anos de atuação no país, evidenciando de forma contundente a profunda crise que assola o setor logístico nacional.
Serviços internacionais serão mantidos, mas estrutura nacional será desmontada
A companhia deixará de transportar cartas, documentos e encomendas de origem nacional, concentrando seus esforços na manutenção do serviço de remessas internacionais, além da gestão de estoques e operações logísticas mais complexas. Trata-se de uma estratégia de reorientação focada na busca por melhores resultados financeiros em um mercado global cada vez mais competitivo e tecnológico.
Especialistas analisam os motivos por trás da saída: o temido "custo Brasil"
Carlos Honorato, economista da FIA Business School, explica que a pressão por margens e rentabilidade é intensa no cenário atual. "Eu não chamaria de desinteresse pelo Brasil, mas provavelmente nessa análise do custo Brasil. Falta tecnologia, falta gente treinada, falta investimento em inovação, em novos processos", afirma. A economista Zeina Latif complementa, destacando que o país possui custos operacionais elevados de toda a natureza, o que encarece as operações e impacta diretamente o setor privado.
Os desafios logísticos no Brasil são múltiplos e complexos:
- Insegurança nas operações de transporte e entrega.
- Infraestrutura deficiente, com gargalos em aeroportos e estradas.
- Burocracia excessiva que dificulta a agilidade dos processos.
- Mão de obra que necessita de maior capacitação e treinamento.
Transformação do setor e pressão do comércio eletrônico
Em escala mundial, o negócio de postagem e entregas enfrenta uma transformação radical. A internet reduziu drasticamente a demanda pelo envio de cartas, enquanto o comércio eletrônico estabeleceu novos parâmetros, com clientes exigindo entregas extremamente rápidas e fretes a custo zero. Essa dinâmica comprime ainda mais as margens das empresas, situação agravada no contexto brasileiro devido às suas dimensões continentais e diversidade regional.
Correios acumulam prejuízos bilionários e buscam reestruturação cara
Na América Latina, os Correios brasileiros se consolidam como os maiores operadores postais, mas enfrentam uma grave crise financeira. A empresa estatal acumula 13 trimestres consecutivos de resultados negativos, com um prejuízo de R$ 6 bilhões registrado apenas no período de janeiro a setembro de 2025. Agora, anuncia um plano de reestruturação com custo total estimado em R$ 20 bilhões.
Do montante necessário, cinco bancos já emprestaram R$ 12 bilhões, restando a captação de mais R$ 8 bilhões. O plano inclui medidas drásticas para redução de gastos:
- Demissões em massa de funcionários.
- Venda de imóveis e ativos da empresa.
- Fechamento de agências consideradas ineficientes.
- Investimentos em automação e modernização tecnológica.
Debate sobre o futuro: inovação urgente versus modelo condenado
Carlos Honorato avalia que os Correios perderam um tempo valioso para inovar. "Eles têm que ter muito mais agilidade, muito mais investimento. O fato dos Correios terem esse volume de aporte que tem que ser feito só para recuperar o tempo perdido já demonstra que é uma empresa que não tem uma capacidade, uma viabilidade imediata", analisa. O economista defende uma mudança de mentalidade para que a empresa se torne competitiva em parâmetros internacionais, abandonando a postura de quem se apoia em um monopólio teórico.
Zeina Latif, por sua vez, adota uma posição mais crítica. "Injetar mais recursos para um modelo que está condenado é temerário. É temerário porque no final o risco que a sociedade corre é de estar jogando dinheiro fora. A discussão que o país deveria estar fazendo seria sobre privatização", argumenta a consultora econômica, sugerindo que qualquer aporte financeiro deveria estar vinculado a uma mudança radical no modelo de negócios.
Posicionamento oficial dos Correios
Em nota, os Correios atribuíram os prejuízos acumulados à transformação estrutural do setor, à queda nas receitas e ao aumento generalizado de custos. A empresa afirmou que já iniciou o processo de reestruturação com o objetivo de investir em inovação e garantir competitividade sustentável no longo prazo, embora os especialistas demonstrem ceticismo quanto à eficácia das medidas sem uma revisão profunda do modelo atual.