Disputa entre sócias da Raízen amplia risco de recuperação judicial
As negociações entre Cosan e Shell para reforçar o caixa da Raízen estão paralisadas, aumentando significativamente as incertezas sobre o futuro da maior produtora de açúcar e etanol do Brasil e uma das principais distribuidoras de combustíveis do país. A empresa enfrenta uma situação financeira crítica, com dívida bruta de aproximadamente R$ 73 bilhões e valor de mercado próximo de apenas R$ 7 bilhões na B3.
Propostas divergentes entre as acionistas
A Shell manifestou intenção de realizar um aporte de R$ 3,5 bilhões, com contribuição adicional de R$ 500 milhões da Aguassanta, family office de Rubens Ometto, principal acionista da Cosan. A petroleira britânica espera que a Cosan acompanhe o movimento com valor equivalente. Caso a holding brasileira não participe, sua participação na joint venture seria diluída, abrindo caminho para que a Shell amplie sua fatia e eventualmente assuma o controle operacional.
Entretanto, fontes próximas às tratativas afirmam que nunca esteve nos planos recentes da Cosan realizar novo aporte relevante na Raízen. Em 2025, a companhia já havia levantado cerca de R$ 10 bilhões em capitalização com recursos do BTG Pactual e da gestora Perfin, destinados exclusivamente à redução do endividamento da própria Cosan, não ao reforço de caixa de subsidiárias.
Plano abrangente fracassou antes do impasse atual
Antes do atual travamento, foi discutido um plano mais amplo de reestruturação que envolvia aumento de capital superior a R$ 10 bilhões, com participação de Cosan, Shell, BTG, Perfin, Aguassanta e outros investidores. O desenho incluía a separação da Raízen em duas empresas distintas: uma concentrando os ativos de açúcar e etanol e outra reunindo a área de distribuição de combustíveis, buscando destravar valor e facilitar entrada de novos investidores. As conversas, porém, não avançaram.
Pressão crescente dos credores por capitalização substancial
O debate entre as sócias ocorre sob intensa pressão de bancos e detentores de títulos no exterior. No final de fevereiro, credores enviaram cartas às acionistas defendendo uma capitalização substancial que poderia alcançar até R$ 25 bilhões, como condição essencial para estabilizar a estrutura financeira da empresa. Esta cifra é significativamente superior aos valores atualmente em discussão.
Parte da estratégia ventilada envolveria negociar com bancos e bondholders a conversão de dívida em ações, com desconto relevante, reduzindo assim a alavancagem. Especialistas avaliam que um aporte limitado pode não ser suficiente para restaurar a confiança do mercado, especialmente em um cenário de juros ainda elevados e volatilidade nos preços de combustíveis e commodities agrícolas.
Risco assimétrico entre as sócias
O impasse também evidencia diferenças estratégicas fundamentais entre as sócias. Para a Shell, gigante global com operações diversificadas e ativos de exploração e produção fora da estrutura da Raízen, uma eventual reestruturação judicial teria impacto restrito à joint venture. Já para a Cosan, cujo portfólio está concentrado no Brasil, a deterioração da Raízen representa risco mais direto de contaminação financeira e reputacional.
Se não houver acordo sobre um plano de capitalização mais amplo e aceito pelos credores, cresce substancialmente a possibilidade de a companhia recorrer à recuperação judicial para renegociar suas obrigações. Procuradas, Cosan e Shell não comentaram oficialmente as negociações até a publicação deste texto.
O desfecho das tratativas será decisivo não apenas para o futuro da Raízen, mas também para a dinâmica do setor sucroenergético e de distribuição de combustíveis no Brasil, com potenciais impactos em toda a cadeia produtiva e no mercado de energia nacional.



