O Brasil possui características únicas para se tornar um dos principais fornecedores globais de energia limpa e renovável, seja pela exportação de biocombustíveis ou pela atração de empresas que buscam uma matriz energética sustentável. Essa foi a conclusão do VEJA Fórum Energia, realizado na segunda-feira, 27 de abril, em São Paulo, reunindo especialistas e executivos de grandes empresas do setor.
Biocombustíveis como locomotiva
As exportações de etanol e biodiesel, que eram praticamente nulas em 2021, devem atingir 1,2 bilhão de litros em 2026, segundo Carlos Eduardo Hammerschmidt, vice-presidente do grupo Potencial. “O biocombustível é a locomotiva do Brasil, ao lado do agro”, afirmou. No entanto, o crescimento esbarra na lentidão governamental. A Lei do Combustível do Futuro, de 2024, prevê elevar a mistura de biodiesel ao diesel fóssil para 20% até 2030, mas o Conselho Nacional de Política Energética não tem avançado com a regulamentação. Enquanto a Indonésia chegará a 50% de mistura e os EUA a 20%, o Brasil permanece em 15%. Como resultado, as 58 usinas de biodiesel operam com 57% de capacidade ociosa.
Desafios no setor elétrico
O setor elétrico enfrenta o problema do curtailment: a interrupção forçada de hidrelétricas durante o dia para evitar sobrecarga, devido à alta geração eólica e solar. À noite, como poucas hidrelétricas retomam rapidamente, termelétricas são acionadas, elevando riscos de apagões. “É uma bomba-relógio”, alertou Daniel Maia, CEO da Athon. A solução adotada em outros países é o armazenamento em baterias, mas isso exige coordenação entre empresas e governo. “Precisamos mostrar ao mundo que a governança do setor elétrico é efetiva”, disse Adriana Waltrick, CEO da SPIC Brasil, que planeja investir R$ 1 bilhão na hidrelétrica de São Simão.
Governança e autossuficiência
A falta de governança preocupa também os consumidores. “É perigoso quando cada um enxerga só o seu lado”, afirmou Anderson Baranov, presidente da Norsk Hydro Brasil. A desarticulação faz com que os incentivos se concentrem na geração, não no consumo. Grandes empresas como a Vale já buscam autossuficiência: “Isso nos garante segurança”, disse Rodrigo Lauria, diretor de descarbonização. Para pessoas físicas, a migração para o mercado livre será possível a partir de 2028. Gustavo Cintra, do BTG Pactual, alertou: “Não se deve enfatizar apenas o preço baixo, mas a possibilidade de controlar o contrato.” Boa governança, previsibilidade e incentivos adequados são essenciais para o futuro energético do Brasil.



