Liquidação da Reag Trust pelo BC paralisa pagamentos do fundo da Neo Química Arena
A decisão do Banco Central de decretar a liquidação da gestora de fundos Reag Trust provocou um impacto direto e imediato na estrutura financeira que sustenta o estádio do Corinthians, a Neo Química Arena, localizada em Itaquera, na zona leste de São Paulo.
Contas do fundo imobiliário travadas há mais de duas semanas
As contas do Arena Fundo de Investimento Imobiliário, que era administrado pela Reag Trust, deixaram de ser pagas há mais de duas semanas, o que travou completamente os repasses a fornecedores ligados à operação do espaço esportivo.
O fundo imobiliário estava sob a gestão da Reag Trust, que teve seus bens bloqueados após a liquidação decretada pelo BC no dia 15 de janeiro. De acordo com investigações conduzidas pela Polícia Federal, a Reag fazia parte de um esquema de fundos inflados artificialmente, com ligações a operações do Banco Master, de Daniel Vorcaro.
O diretor financeiro do Corinthians, Emerson Piovesan, confirmou a situação à reportagem. "O ponto sensível no momento, em razão da liquidação da Reag, é a impossibilidade de movimentação das contas do fundo, o que impacta temporariamente o pagamento de fornecedores desde o dia 14/01", afirmou ele.
Piovesan não forneceu detalhes específicos sobre a dimensão financeira da paralisação dos pagamentos nem sobre o número exato de fornecedores afetados pela interrupção dos repasses.
Busca por nova gestora e manutenção das operações
Segundo o diretor financeiro do clube alvinegro, uma solução para o impasse deve ser anunciada em breve, com a nomeação de um novo gestor para o fundo da arena. Embora o martelo ainda não tenha sido batido, tudo indica que o acordo será fechado com o Grupo Planner.
Essa empresa adquiriu a Companhia Brasileira de Serviços Financeiros, conhecida como Ciabrasf, que era uma companhia de administração de fundos pertencente à Reag Trust. "O clube está atuando de forma ativa para solucionar essa questão e, paralelamente, adotando todas as medidas necessárias para a substituição do gestor e do administrador do fundo", declarou Piovesan.
Apesar da falta de repasses aos fornecedores, o diretor garante que o dia a dia da arena permanece mantido, com base nos contratos vigentes. "Atualmente, a arena encontra-se em plena operação, não havendo, no horizonte do clube, qualquer cenário que indique a interrupção de suas atividades", afirmou.
Ele também ressaltou que não há impactos nas partidas do time profissional já programadas, uma vez que toda a operação dos jogos é realizada pelo próprio clube, incluindo a arrecadação de bilheteria e o pagamento das respectivas despesas.
Funcionamento do Arena FII e impacto nos cotistas
O Arena FII foi estruturado para captar recursos com cotistas e, dessa forma, bancar os custos de construção da Neo Química Arena. Em troca, ele detém os direitos econômicos do estádio e recebe para o pagamento da dívida com a obra ao longo do tempo.
Na prática, o fundo é o titular jurídico da exploração econômica do espaço, o que inclui:
- Bilheteria de jogos
- Camarotes e cadeiras especiais
- Ingressos de temporada
- Eventos diversos
- Publicidade e naming rights
- Estacionamento
Nessa engrenagem financeira, o Corinthians atua como o operador do negócio. O time vende ingressos, organiza partidas, administra restaurantes, tours e eventos, contrata serviços e paga despesas correntes. Com o dinheiro que recebe, repassa ao fundo, que depois remunera seus cotistas e paga os fornecedores.
Com a Reag Trust fora de cena, o Arena FII está parado, sem ter quem assine por atos de gestão, autorize transferências ou faça pagamentos. No balanço mais recente do fundo, consta que há valores altos em aberto, com R$ 99,6 milhões em "receitas operacionais a receber" do Sport Club Corinthians Paulista.
Os registros contábeis mostram que o repasse dos pagamentos não ocorre em tempo real. O clube arrecada, apura o que pertence ao fundo e repassa posteriormente. Quando esse repasse não acontece, o valor fica contabilizado como crédito do fundo. Dessa forma, o impacto direto recai mais sobre os cotistas do fundo do que sobre o clube em si.
Medidas anteriores e contexto investigativo
No dia 16 de janeiro, o Corinthians emitiu uma nota declarando que, desde meados de agosto de 2025, após a deflagração da Operação Carbono Oculto e as investigações sobre a Reag Trust, deu início a tratativas para a substituição da administradora e da gestora do fundo.
Essas tratativas estão sendo conduzidas em conjunto com a Caixa Econômica Federal, demonstrando que o clube já vinha se preparando para possíveis desdobramentos negativos relacionados à gestora envolvida nas investigações da Polícia Federal.