Restrições a saques em fundos no exterior: entenda o que está por trás
Restrições a saques em fundos no exterior: entenda

Em 2006, Michael Burry, fundador da gestora americana Scion Capital, decidiu não atender mais aos pedidos de resgate dos clientes. Seu fundo permaneceria fechado para saques até que fosse comprovada a sua tese — então ridicularizada em Wall Street — de que o mercado hipotecário dos Estados Unidos vivia uma bolha prestes a explodir. A medida irritou ainda mais os investidores, já atordoados pela perda acumulada de 18% naquele ano. O episódio foi retratado no filme A Grande Aposta (The Big Short), lançado em 2015, no qual o gestor é interpretado pelo ator Christian Bale. O resto da história é conhecido: Burry estava certo e propiciou um lucro de 489% aos clientes, equivalente a quase 800 milhões de dólares.

Nos últimos meses, o caso é lembrado por quem assiste à onda de restrições de resgate impostas por grandes gestoras. O BlackRock, maior grupo de investimentos do mundo, limitou as retiradas do fundo HPS Corporate Lending, cujo patrimônio soma 26 bilhões de dólares. Em teleconferência com analistas em meados de abril, o CEO do grupo, Larry Fink, afirmou que a indústria de fundos ainda enfrentará mais turbulências. O gigante de fundos alternativos Blue Owl e a gestora Blackstone são outros exemplos. A pergunta agora é se os fundos brasileiros adotarão em algum momento as mesmas restrições a saques. A resposta mais direta é que, por ora, o mercado local não viverá algo parecido, dadas as suas peculiaridades.

O problema nos Estados Unidos

Nos Estados Unidos, o problema se concentra em um tipo específico de fundo de crédito focado em pequenas e médias empresas — o chamado Business Development Company (BDC). Tais fundos ocuparam o espaço dos grandes bancos no mercado privado de crédito após a crise financeira global deflagrada em 2008. Pouco regulamentados, os BDCs podem utilizar seu patrimônio em empréstimos diretos a empresas. Desde meados do ano passado, porém, os sinais erráticos da economia americana, na esteira das constantes mudanças de humor do presidente Donald Trump, aumentaram a preocupação dos investidores com uma possível piora no mercado de crédito. A isso, somam-se as dúvidas acerca do impacto da inteligência artificial sobre os negócios de médio porte e o mau desempenho de alguns setores tradicionais, como o de autopeças. Tais fatores alimentam o incômodo com a possibilidade de os BDCs enfrentarem uma maré de inadimplência, o que reforça o desejo dos investidores de reaver seu dinheiro. Como os empréstimos são de longo prazo, o caixa dos fundos é insuficiente para atender a todos. A solução foi limitar a retirada.

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Fundo de crédito: o que dizem os especialistas

“O ponto é que esses fundos investem em ativos menos líquidos”, diz Thiago Novaes, sócio do grupo financeiro Multiplica. “O gestor não consegue liquidar rapidamente os ativos.”

A situação no Brasil

No Brasil, a Resolução nº 175 da Comissão de Valores Mobiliários autoriza os gestores a restringir ou suspender os saques “em casos excepcionais de iliquidez dos ativos componentes da carteira”, incluindo as situações em que os pedidos de resgate sejam incompatíveis com o caixa. Tal recurso, contudo, foi aplicado em raras ocasiões. Os casos mais recentes são de 2023 e envolvem três fundos — o Lótus HY, o Lótus DI e o Lótus IPCA. Todos foram estruturados pela Empírica, gestora comprada pela SRM no ano passado. Assim como ocorreu nos Estados Unidos, as dúvidas sobre a sua solidez detonaram uma corrida para sacar o dinheiro, culminando em seu fechamento. Desde então, os investidores tentam reaver os recursos. Em nota, a SRM Empírica informa que convocou uma assembleia geral de cotistas para avaliar a questão. No mercado, especula-se que o melhor é extinguir os fundos e devolver o que ainda resta do dinheiro.

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Fundo de crédito: diferenças entre BDCs e FIDCs

Mesmo com poucos exemplos de problemas no Brasil, os investidores estão desconfortáveis com o recorde de 5.680 empresas em recuperação judicial batido no ano passado. Também preocupa o fato de que, segundo a consultoria RK Partners, 24% dos negócios não contam com caixa para pagar as dívidas devido aos juros altos, mantidos em um patamar contracionista pelo Banco Central, comandado por Gabriel Galípolo, devido à pressão inflacionária. Por isso, as atenções se voltam para os fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs), mas as diferenças em relação aos BDCs reduzem os riscos de perdas acentuadas em caso de calote. A primeira são as regras impostas pela CVM, mais rígidas que as americanas. Além disso, em vez de emprestar dinheiro ao tomador, os FIDCs investem em títulos de dívida como debêntures e certificados de recebíveis, que contam com mais liquidez no mercado. O prazo de vencimento dos papéis também é menor.

“Parte da carteira dos FIDCs é composta de dívidas de 30 a 90 dias”, diz Diego Coelho, sócio da gestora Brave Asset. “Isso ajuda a compor o caixa rapidamente em momentos de maior resgate.”

Fundo de crédito: diversificação como proteção

Por último, ao contrário dos fundos americanos de crédito privado, os similares nacionais contam com portfólios mais diversificados, a fim de diluir o efeito de uma eventual inadimplência — uma lição aprendida com o pedido de recuperação judicial da Lojas Americanas, em 2023. “Uma das belezas dos FIDCs é a pulverização do risco”, afirma Pedro Rudge, diretor da Anbima, entidade que representa as gestoras brasileiras. É claro que, como qualquer aplicação financeira, tais fundos não são imunes a perdas. Como as autoridades exigem que o valor dos papéis que compõem a carteira seja atualizado diariamente — a chamada marcação a mercado —, em períodos de forte volatilidade e grande demanda por saques, o preço dos títulos tende a cair e o investidor pode resgatar menos do que gostaria.

Como proteger seus investimentos

Para evitar surpresas, a melhor estratégia é a mais simples — distribuir o patrimônio por diversos fundos, a fim de pulverizar o risco, e conhecer bem cada um deles. Somente assim, o investidor saberá se está lidando com o próximo Michael Burry — ou se é hora mesmo de bater em retirada.