O câncer avança no Brasil, mas a ciência responde com inovações no diagnóstico e tratamento. Exames de imagem precisos, biópsia líquida, imunoterapia e terapias celulares prometem mudar o cenário, tornando o combate à doença mais eficaz e personalizado. Saiba como a medicina está revolucionando o enfrentamento do câncer.
Cenário do câncer no Brasil
De 2026 a 2028, o Brasil deverá registrar 2,3 milhões de novos casos de câncer, com 230 mil pessoas atingidas a mais que no triênio anterior, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca). Dados da plataforma Observatório de Oncologia indicam que a doença pode se tornar a principal causa de morte no país até 2029. Hoje, já responde por 17% dos óbitos. Em paralelo ao avanço da incidência, porém, a ciência amplia o arsenal de combate à doença. Os progressos vão do diagnóstico ao tratamento e incluem exames de imagem mais precisos, novas modalidades de biópsia e terapias para agir de forma mais direta sobre os tumores.
Avanços no diagnóstico
Os avanços recentes no diagnóstico incluem uma nova geração de exames de imagem, como a tomografia por emissão de pósitrons, capaz de identificar áreas de maior atividade metabólica — um traço das células cancerígenas. Associada à tomografia computadorizada ou à ressonância magnética, a técnica ganha precisão com o uso de substâncias que se ligam a alvos específicos, tornando determinadas células ou tecidos mais visíveis. A estratégia já é usada para detectar e monitorar cânceres de próstata, diz Leandro Veloso Maia Lemos, diretor médico da rede Croma Oncologia, uma sociedade de Beneficência Portuguesa de São Paulo, Bradesco Seguros e Grupo Fleury. “Em pacientes de alto risco, esse método eleva a acurácia do estadiamento — ou seja, da avaliação de até que ponto o câncer se espalhou pelo corpo — para 92%, ante 65% nos exames de imagem convencionais”, afirma Lemos.
Medicina molecular e biópsia líquida
Outra frente promissora é a medicina molecular. Nela, uma das técnicas que mais avançam é a análise do DNA tumoral circulante, composto de fragmentos de material genético liberados pelo tumor na corrente sanguínea. A tecnologia vem se consolidando como ferramenta complementar para refinar diagnósticos e orientar decisões clínicas. Um estudo publicado em 2025 no The New England Journal of Medicine, liderado pela Queen Mary University of London com participação do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, mostrou que, entre 357 pacientes com câncer de bexiga que não apresentavam DNA tumoral circulante no sangue, a sobrevida livre de doença foi de 95% após um ano. Para Eliza Ricardo, oncologista do Centro Especializado em Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, a tendência é que a biópsia líquida ganhe espaço no apoio ao diagnóstico personalizado. “Com a capacidade de realizar biópsias líquidas, poderemos identificar tumores com maior precisão e direcionar melhor a continuidade do tratamento”, destaca.
Inovações no tratamento
No tratamento, destacam-se a imunoterapia, as terapias celulares CAR-T, os anticorpos biespecíficos e os anticorpos droga-conjugados. “Essas estratégias são alguns dos avanços recentes mais importantes no tratamento do câncer”, afirma Lemos. A imunoterapia estimula o sistema imunológico a reconhecer e atacar as células cancerígenas, com resultados duradouros em alguns tipos de tumor, como o melanoma avançado. Já as terapias celulares CAR-T consistem na coleta e modificação de células de defesa do próprio paciente, que depois são reinfundidas no organismo com maior capacidade de combater o tumor. Outra estratégia é o uso de anticorpos biespecíficos, que fazem uma ponte entre células do sistema imunológico e tumorais. A tecnologia vem ganhando maturidade no tratamento de mieloma múltiplo e de linfomas. Também avançam os anticorpos droga-conjugados, uma forma de entrega direcionada de quimioterapia: um anticorpo reconhece uma característica da célula tumoral e leva o remédio direto ao alvo. “Com a liberação do medicamento nas células onde precisa atuar, atacamos a doença com mais eficiência e menor impacto sobre células saudáveis. Já há casos de uso para câncer de mama”, diz Ricardo.
Melhora nos indicadores de sobrevida
O efeito combinado dessas inovações ajuda a explicar a melhora dos indicadores de sobrevida. Nos Estados Unidos, nos anos 1970, a taxa de sobrevida ao câncer era de 50%. Hoje está em 70%. O dado reforça uma mudança de perspectiva: embora o câncer continue sendo um dos maiores desafios da saúde, o avanço da medicina vem tornando o enfrentamento da doença mais preciso, personalizado e eficaz.



