Mais de 80% das famílias brasileiras estão endividadas, um recorde histórico que preocupa o governo em ano eleitoral. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 80,4% das famílias tinham dívidas em março. Quase 82 milhões de pessoas estão inadimplentes, conforme dados da Serasa, representando 49,9% da população adulta.
Endividamento e inadimplência em alta
O levantamento da CNC mostra que 29,6% das famílias possuem contas em atraso, e 12,3% não conseguem pagar as dívidas vencidas. O comprometimento da renda familiar com dívidas chega a 29,6%. Os principais tipos de dívida são cartão de crédito (84,9%), crediário (16%) e empréstimos pessoais (12,6%). O valor médio da dívida por inadimplente é de R$ 6.598,13.
Causas do endividamento recorde
Especialistas apontam três fatores principais: a ampliação do crédito com a bancarização pós-pandemia, as altas taxas de juros e a disseminação das plataformas de apostas virtuais (bets). O juro médio do rotativo do cartão de crédito chegou a 435,9% ao ano em fevereiro. Uma pesquisa Datafolha revela que 27% dos brasileiros usam o crédito rotativo com frequência.
Histórias de endividados
A psicóloga Bárbara Helena da Silva, de Florianópolis, acumulou dívidas de R$ 20 mil em três cartões de crédito. Ela recebe cerca de 20 ligações de cobrança por dia. Já Nicole, de 21 anos, moradora da Bahia, perdeu o casamento e a saúde mental devido ao vício em apostas. Ela deve mais de R$ 10 mil em empréstimos bancários. Otávio, empresário em Minas Gerais, gastou R$ 100 mil em bets e hoje deve R$ 30 mil.
Governo planeja novo Desenrola
O governo federal estuda lançar uma segunda versão do programa de renegociação de dívidas Desenrola. Uma das medidas é liberar valores do FGTS para quitação de débitos, podendo chegar a R$ 7 bilhões. Também avalia mecanismos para conter o uso excessivo de bets. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, indicou que o novo programa atenderá pessoas físicas e empresas.
Efeito temporário do Desenrola
Estudo da MB Associados mostra que a primeira edição do Desenrola reduziu a inadimplência das famílias de baixa renda em 2 a 3,5 pontos percentuais, mas o efeito se dissipou em 18 meses. O economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, defende educação financeira, transparência no crédito e redução dos juros básicos como soluções estruturais.
Impacto político
O endividamento elevado influencia a avaliação do governo e as intenções de voto. Enquanto Bárbara mantém apoio a Lula, Otávio tende a votar em Flávio Bolsonaro. Nicole critica a falta de ação contra as bets. O desconhecimento sobre as medidas governamentais revela um desafio de comunicação.



