UE e Índia celebram acordo histórico de livre comércio após duas décadas de negociações
Em um momento geopolítico marcado por incertezas, a União Europeia e a Índia deram um passo significativo nas relações internacionais ao formalizar, nesta terça-feira (27), um ambicioso acordo de livre comércio. Após vinte anos de discussões, o pacto estabelece uma zona comercial que abrange aproximadamente 2 bilhões de pessoas, representando cerca de 25% do Produto Interno Bruto mundial e um terço do comércio internacional.
Contexto geopolítico e objetivos estratégicos
O acordo surge em um cenário global complexo, onde as partes buscam proteção contra a concorrência chinesa e os efeitos da guerra tarifária iniciada pelos Estados Unidos. Líderes de ambas as regiões destacaram a importância estratégica desta parceria. Narendra Modi, primeiro-ministro indiano, afirmou que o pacto trará muitas oportunidades, enquanto Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, celebrou nas redes sociais: "Europa e Índia fizeram história hoje. Concluímos a mãe de todos os acordos".
Benefícios econômicos e redução tarifária
Os últimos obstáculos para a conclusão do texto foram superados na segunda-feira, permitindo a assinatura oficial. Entre os benefícios imediatos, destaca-se a redução significativa de tarifas em diversos setores:
- Tarifas indianas sobre veículos europeus caem de 110% para 10%
- Impostos sobre vinho reduzem de 150% para 20%
- Taxas sobre massa e chocolate são totalmente eliminadas, partindo de 50%
Segundo estimativas de Bruxelas, a UE poderá economizar até 4 bilhões de euros anualmente com a diminuição das tarifas indianas sobre importações europeias. A Alemanha já classificou o acordo como um motor de crescimento e geração de empregos.
Impacto no comércio bilateral e perspectivas futuras
Em 2024, o comércio de mercadorias entre as partes atingiu 120 bilhões de euros, com serviços somando 60 bilhões de euros – um aumento de quase 90% na última década. A Índia espera fortalecer exportações de têxteis, joias, pedras preciosas e produtos de couro, enquanto a UE projeta dobrar suas exportações para o mercado indiano.
O acordo ocorre pouco depois da UE assinar, em 17 de janeiro, um pacto com o Mercosul, criando outra das maiores zonas de livre comércio do mundo. No entanto, o Parlamento Europeu suspendeu a ratificação desse acordo por aproximadamente um ano e meio para avaliação jurídica.
Visão de longo prazo e cooperação ampliada
Além do aspecto comercial, UE e Índia planejam assinar acordos complementares sobre:
- Circulação de trabalhadores temporários
- Intercâmbio de estudantes, pesquisadores e profissionais qualificados
- Cooperação em segurança e defesa
Nova Délhi vê a Europa como fonte indispensável de tecnologias e investimentos para acelerar sua modernização e criar milhões de empregos. Paralelamente, a Índia diversifica suas compras de equipamentos militares, distanciando-se do fornecedor histórico Rússia, enquanto a Europa busca maior autonomia em relação aos Estados Unidos.
Com 1,5 bilhão de habitantes e crescimento econômico de 8,2% no último trimestre, a Índia representa um mercado de imenso potencial. Previsões do Fundo Monetário Internacional indicam que o país superará o Japão como quarta maior economia mundial ainda este ano, com projeções de alcançar o pódio das três maiores antes de 2030.
Como destacou Von der Leyen: "Índia e Europa tomaram uma decisão clara. Mostramos a um mundo fraturado que há outro caminho possível" – uma afirmação que ressoa além das cifras, apontando para um realinhamento estratégico nas relações internacionais.