O custo de financiamento do governo britânico disparou nesta terça-feira, 12 de maio de 2026, em meio ao agravamento da crise política que envolve o primeiro-ministro Keir Starmer. A turbulência elevou os juros dos títulos de 30 anos do Reino Unido ao maior patamar desde 1998, intensificando a pressão sobre as contas públicas do país.
Fuga de investidores e alta dos juros
Os chamados gilts, títulos da dívida pública britânica, passaram a ser vendidos em massa por investidores após rumores de que ministros do gabinete pressionaram Starmer a considerar sua renúncia. Esse movimento ocorre depois de uma sequência de derrotas eleitorais do Partido Trabalhista e de dissidências internas no governo.
Segundo o jornal Financial Times, o rendimento dos títulos britânicos de 30 anos atingiu 5,8%, o maior nível deste século. Já os papéis de 10 anos avançaram para cerca de 5,1%, aproximando-se dos índices registrados durante a crise provocada pelo governo de Liz Truss, em 2022. A libra esterlina também recuou frente ao dólar e ao euro.
Confiança do mercado abalada
O aumento dos rendimentos dos títulos reflete a perda de confiança do mercado financeiro na capacidade do governo de estabilizar a economia e controlar o déficit público. Quando investidores exigem juros maiores para financiar o Estado, o custo da dívida sobe e pressiona ainda mais o orçamento.
Analistas ouvidos pela imprensa britânica afirmam que o temor não está ligado apenas à possível saída de Starmer, mas também à incerteza sobre quem poderia substituí-lo. Parte do mercado teme uma guinada mais à esquerda dentro do Partido Trabalhista, com maior expansão de gastos públicos e aumento da intervenção estatal.
Reação do mercado à instabilidade política
A crise marca uma mudança importante na percepção sobre o governo trabalhista. Quando Starmer venceu as eleições em 2024, investidores viam o premiê como uma figura moderada, capaz de oferecer estabilidade após anos de turbulência conservadora, Brexit e inflação elevada. Nos últimos meses, porém, o governo passou a enfrentar dificuldades para equilibrar crescimento econômico fraco, pressão sobre serviços públicos e aumento das demandas dentro do próprio partido.
A deterioração fiscal se agravou após derrotas locais recentes e disputas internas sobre gastos sociais e tributação. A reação dos mercados lembra, em menor escala, o episódio que derrubou Liz Truss há quatro anos. Em 2022, o anúncio de cortes de impostos sem compensação fiscal provocou uma forte venda de títulos britânicos, obrigando o Bank of England a intervir para evitar um colapso do sistema de pensões. Desta vez, o problema é diferente: em vez de um choque fiscal repentino, investidores enxergam paralisia política e dificuldade do governo em apresentar uma estratégia econômica consistente.
Pressão sobre as contas públicas
O aumento dos juros da dívida representa um problema direto para o Tesouro britânico. Quanto maior o rendimento exigido pelos investidores, mais caro fica refinanciar a dívida pública do país, que já supera 95% do PIB. Economistas alertam que a escalada dos rendimentos pode limitar a capacidade do governo de ampliar investimentos ou lançar programas de estímulo econômico. Também aumenta a pressão para cortes de gastos ou elevação de impostos em um momento de desaceleração da economia.
O cenário preocupa porque o Reino Unido já convive com crescimento baixo, produtividade estagnada e inflação persistente. Dados recentes mostram que o país continua enfrentando dificuldades para recuperar o dinamismo perdido após o Brexit e os choques energéticos dos últimos anos.
Temor de nova instabilidade no Reino Unido
A crise também reforça a percepção de fragilidade política no país. Desde 2016, o Reino Unido teve uma sucessão de primeiros-ministros e episódios de instabilidade que abalaram a confiança internacional na condução econômica britânica. Investidores acompanham agora se Starmer conseguirá sobreviver politicamente nas próximas semanas ou se o Partido Trabalhista abrirá uma disputa interna pela liderança.
O receio do mercado é que um processo prolongado de sucessão aumente ainda mais a volatilidade nos ativos britânicos. A deterioração ocorre num momento em que diversos governos europeus enfrentam pressão crescente dos mercados para controlar déficits e conter o avanço da dívida pública em um ambiente de juros elevados.



