Ouro atinge patamares históricos com escalada de tensões no Oriente Médio
Com a intensificação da guerra no Oriente Médio após os recentes ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, o ouro voltou a disparar nos mercados internacionais nesta segunda-feira (2). Considerado um investimento de proteção em momentos de crise, o metal precioso passou a ser mais procurado à medida que ações e outros ativos considerados mais arriscados apresentavam recuos significativos.
Trajetória de alta e recordes históricos
Movimentos semelhantes já foram observados em outras grandes crises recentes, como a guerra na Ucrânia, conflitos no Oriente Médio, tensões entre EUA e Irã, a guerra comercial entre Estados Unidos e China, e também durante o período pandêmico. Nos últimos meses, contudo, a cotação do ouro tem alcançado patamares verdadeiramente históricos.
Desde o início de 2026, o ouro já vinha em trajetória de alta consistente, impulsionado por incertezas políticas, dúvidas sobre os juros americanos e aumento significativo das compras por bancos centrais ao redor do mundo. Em janeiro, o metal atingiu o recorde histórico de US$ 5.595 por onça, alcançando o maior valor de sua história logo após superar, pela primeira vez, a marca psicológica dos US$ 5 mil.
Nos últimos doze meses até fevereiro, o preço do ouro acumulou valorização impressionante de mais de 85%, desempenho que superou amplamente o da bolsa brasileira e de outros investimentos populares. No mesmo período comparativo, o Ibovespa subiu cerca de 54%, o índice de ações que pagam dividendos avançou quase 49%, e as ações de empresas menores, conhecidas como small caps, tiveram alta de aproximadamente 44%.
O que explica a disparada do ouro?
Segundo analistas do mercado financeiro, a busca por segurança explica grande parte desse movimento ascendente. Para Thiago Azevedo, sócio-fundador da Guardian Capital, a disparada é resultado de uma combinação complexa de fatores globais.
"O ouro atingiu níveis recordes principalmente por causa da expectativa de queda dos juros nas principais economias, do aumento das tensões geopolíticas e da procura por proteção do patrimônio. Em cenários assim, os investidores costumam reduzir a exposição a aplicações mais arriscadas e aumentar a presença em investimentos considerados mais seguros", afirma o especialista.
A atuação dos bancos centrais também tem sustentado os preços em patamares elevados. De acordo com o economista Mauriciano Cavalcante, da Ourominas, vários países vêm trocando parte substancial de suas reservas em dólar por ouro. Isso ocorre porque o ouro não depende de nenhum país específico, ao contrário do dólar, que está intrinsecamente ligado à economia dos Estados Unidos.
"O preço do ouro sobe por diversos motivos, mas hoje o fator mais relevante é a procura dos bancos centrais, que estão ampliando suas reservas em ouro e diminuindo a dependência do dólar", explica Cavalcante.
Além disso, a escalada de tensões entre Estados Unidos e Irã, que culminou nos ataques do último sábado, e as persistentes dúvidas sobre a política monetária americana contribuem decisivamente para a valorização. Quando há expectativa de juros mais baixos, investimentos que pagam rendimento se tornam menos atrativos, e o ouro naturalmente ganha espaço. Taxas menores tendem a enfraquecer o dólar, tornando o metal mais acessível para investidores de outras nacionalidades.
Ajustes pontuais e comportamento do mercado
Após atingir recordes impressionantes, o preço passou por ajustes pontuais, considerados completamente naturais pelos especialistas do setor.
"Vejo esse recuo como uma realização de lucros por parte de quem entrou antes da alta, além de ajustes provocados pelo fortalecimento do dólar e pela oscilação dos juros americanos. Esse tipo de comportamento é comum em ativos globais como o ouro", detalha Thiago Azevedo.
Ramiro Gomes Ferreira, cofundador do Clube do Valor, destaca que o metal funciona como um verdadeiro "termômetro do medo" nos mercados financeiros.
"Quando os piores cenários não se confirmam ou muitos investidores decidem vender para garantir o lucro, o preço costuma cair um pouco. Como o ouro não gera renda, seu valor depende fundamentalmente da oferta, da demanda e do grau de incerteza dos investidores", afirma Ferreira.
Vale a pena investir em ouro agora?
O ouro continua sendo procurado como porto seguro em tempos de crise e instabilidade econômica global. Investidores recorrem ao metal porque, ao contrário de ações ou títulos, ele tende a manter seu valor mesmo em momentos de turbulência extrema nos mercados financeiros internacionais.
Guerras, conflitos internacionais e altas nos preços de commodities, como petróleo e gás, aumentam significativamente a demanda pelo ouro, que funciona como uma "proteção" contra perdas em ativos mais arriscados. Além disso, o metal ajuda a diversificar investimentos: em carteiras com ações, fundos imobiliários e renda fixa, ele pode reduzir riscos sistemáticos, evitando perdas maiores quando outros ativos apresentam quedas.
Para Mauriciano Cavalcante, apesar das oscilações recentes, ainda há espaço considerável para novas altas.
"Vale a pena investir em ouro porque a tendência é que o preço continue subindo diante do cenário geopolítico e econômico atual. Além disso, o metal preserva seu valor ao longo do tempo", defende o economista.
Segundo sua análise, o ouro pode atender a diferentes perfis de investidores, e a fatia do patrimônio destinada ao metal pode variar entre 15% e 30%, de acordo com a tolerância individual ao risco.
Já Thiago Azevedo vê o ouro principalmente como um instrumento de proteção patrimonial, e não como uma aposta especulativa de curto prazo.
"A questão não é se o ouro está caro ou barato, mas qual é o papel dele na carteira. Ele serve para proteção e diversificação estratégica. Para quem quer começar, faz mais sentido comprar aos poucos, ao longo do tempo", recomenda.
Ramiro Ferreira ressalta que o ouro não gera renda periódica e não tem um valor justo fácil de calcular. Historicamente, fica atrás de ativos produtivos, como ações, no longo prazo.
"Comprar no topo [na alta] é, na prática, comprar o medo do mercado", alerta. Por não render juros, o ganho ocorre apenas se o preço subir substancialmente. Por isso, quem optar por ter ouro deve limitar cuidadosamente a exposição.
"O ideal é que não passe de 3% a 5% da carteira total, para não comprometer o crescimento sustentável do patrimônio", aconselha o especialista.
Como investir em ouro no Brasil
No mercado brasileiro, existem diferentes formas de investir no metal precioso:
- Ouro físico: compra de barras ou lâminas em empresas autorizadas (a partir de cerca de 1 grama);
- ETFs (Exchange Traded Funds): fundos negociados em Bolsa, como o GOLD11, negociado na B3;
- Fundos de investimento: com aplicação direta em ouro ou em empresas do setor de mineração;
- Contratos futuros: modalidade indicada apenas para investidores experientes e com alto conhecimento de mercado.
Para Thiago Azevedo, o metal continua extremamente relevante no médio e longo prazo.
"O mundo ainda convive com alto endividamento público, riscos fiscais significativos e conflitos geopolíticos persistentes. Por isso, o ouro segue cumprindo um papel importante como proteção contra choques econômicos e perda do poder de compra das moedas tradicionais", finaliza.
A expectativa consolidada do mercado financeiro é de que o preço continue volátil no curto prazo, mas mantenha uma tendência consistente de alta no médio e longo prazo, especialmente caso persistam as incertezas globais e a perspectiva real de cortes de juros nos Estados Unidos.



