O Banco Central (BC) anunciou nesta quarta-feira, 21 de maio, a liquidação extrajudicial da Will Financeira S.A. Crédito, Financiamento e Investimento, instituição amplamente conhecida no mercado como Will Bank. A decisão marca o fim das operações da fintech, que contava com uma base de aproximadamente 12 milhões de clientes em todo o território nacional.
Contexto da intervenção e histórico recente
A Will Financeira integrava o conglomerado do Banco Master, o qual foi liquidado pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025. Desde aquela data, a instituição operava sob o Regime Especial de Administração Temporária (Raet), um mecanismo em que o BC assume temporariamente o controle para evitar agravamento da situação e proteger clientes e a estabilidade do sistema financeiro.
Em fevereiro de 2024, o Master havia anunciado a aquisição do Will Bank, com a transação sendo confirmada em agosto do mesmo ano. No entanto, a intervenção do BC interrompeu esse processo, colocando a fintech em um cenário de incertezas.
Trajetória e expansão da fintech
A Will Bank surgiu em 2017, originada do pag!, um emissor de cartões de crédito fundado por Felipe Felix, atual CEO, em parceria com os irmãos Giovanni e Walter Piana. Em 2020, a empresa passou por uma reformulação estratégica, adotando a marca Will Bank e expandindo sua atuação para além do cartão de crédito, consolidando-se como um banco digital.
Ao longo dos anos, a fintech diversificou seu portfólio, incluindo:
- Conta digital remunerada
- Pagamentos via Pix e boletos
- Empréstimo pessoal
- Antecipação do saque-aniversário do FGTS
- Marketplace com sistema de cashback
Sua comunicação sempre destacou uma linguagem simples e acessível, reforçando o discurso de democratização do crédito, especialmente no Nordeste, região que concentrava cerca de 60% de seus usuários, muitos em cidades de pequeno porte.
Investimentos e reestruturações
Em 2021, a instituição recebeu um aporte de R$ 250 milhões do fundo de private equity da XP e da Atmos Capital, que passaram a deter uma participação minoritária de 24,9%. No ano seguinte, o banco incorporou a equipe e as parcerias da startup de cashback Getmore, acelerando sua estratégia de vendas online.
Em 2024, o grupo passou por uma reestruturação societária significativa. Após aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e do Banco Central, o controle da Will Instituição de Pagamento foi transferido ao Grupo Reag, enquanto a Will Financeira passou para o controle do Grupo Master. Como parte desse processo, ativos e passivos ligados ao arranjo de pagamentos começaram a ser transferidos entre as entidades.
Motivos para a liquidação extrajudicial
Apesar da intervenção, o Will Bank havia apresentado melhora em seus resultados recentes. No primeiro semestre de 2024, a companhia reverteu prejuízos acumulados e apurou lucro líquido de R$ 47,4 milhões, conforme dados divulgados pela própria instituição.
No entanto, a situação deteriorou-se rapidamente. Segundo apurações, o Will Bank permanecia sob regime de administração temporária para permitir a venda a um novo investidor de origem árabe, mas o negócio não se concretizou. Na última segunda-feira, 19 de maio, a Mastercard informou ao BC que a Will Financeira não honrou os pagamentos devidos. No dia seguinte, a Master anunciou a suspensão da aceitação de cartões emitidos pelo Will Bank devido às dívidas acumuladas.
Diante do acúmulo de obrigações financeiras e da inviabilidade operacional, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial. Esse procedimento significa o encerramento das atividades de uma instituição que não tem mais condições de funcionar, realizado sem processo judicial, com o objetivo de organizar o pagamento aos credores de maneira estruturada.
Conexão com o caso Banco Master
A liquidação da Will Financeira está diretamente ligada aos problemas do Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro. A instituição foi liquidada em 18 de dezembro de 2025 pelo BC, enfrentando dificuldades financeiras, alto custo de captação e forte exposição a investimentos considerados arriscados.
Tentativas de venda, como uma proposta do BRB, não avançaram devido a questionamentos de órgãos de controle, falta de transparência e menções ao banco em investigações. O alerta no mercado intensificou-se quando o Master passou a oferecer CDBs com rentabilidades muito acima do padrão.
Recentemente, Maurício Antônio Quadrado, ligado ao Will Bank, foi alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada na última quarta-feira, 14 de maio. De acordo com fontes da Polícia Federal, ele é considerado sócio oculto de Daniel Vorcaro, aprofundando as investigações sobre as relações entre as instituições.
A decisão do Banco Central reflete os desafios enfrentados pelo setor financeiro e a importância da regulação para preservar a confiança dos consumidores e a integridade do sistema econômico brasileiro.