Aos 27 anos, Matheus Tavares viraliza ao anunciar 'primeiro emprego' formal após trajetória informal
Um texto publicado por Matheus Tavares na rede social X, anteriormente conhecida como Twitter, ultrapassou a impressionante marca de 2 milhões de visualizações em apenas algumas horas. Aos 27 anos, o jovem chamou a atenção da internet ao anunciar que havia conseguido o seu 'primeiro emprego', uma declaração que rapidamente viralizou nas redes sociais, mas também gerou uma onda de críticas e discussões.
Uma trajetória marcada por múltiplas ocupações informais
Contrariando a primeira impressão, Matheus Tavares não é alguém que nunca trabalhou. Sua jornada profissional começou ainda na adolescência, quando atuava como office-boy no centro de São Paulo enquanto estudava para concursos militares. Ao longo dos anos, ele acumulou experiências em diversas áreas, incluindo:
- Fotógrafo em casa noturna
- Motoboy
- Vendedor
- Motorista de aplicativo
- Mecânico
- Técnico em celulares
- Pequenos negócios próprios
- Importação de produtos
Mesmo com essa trajetória diversificada, o reconhecimento social nem sempre acompanhou seu percurso. 'Não era uma cobrança direta. Mas as pessoas olhavam meio com pena, como se eu estivesse sem rumo', relata Matheus sobre como era percebido durante esses anos de trabalhos informais.
O que realmente mudou: do trabalho informal ao vínculo formal
O marco atual na vida de Matheus não representa o início de sua vida profissional, mas sim uma mudança significativa no tipo de vínculo trabalhista. Pela primeira vez, ele passou a trabalhar diretamente para uma empresa, com um contrato e um cargo definido: engenheiro de software.
'Antes eu tinha trabalhos. Agora eu tenho um emprego. Hoje eu tenho um título, consigo dizer o que eu faço', afirma com clareza sobre essa transição. É importante destacar que seu novo posto não segue o regime tradicional da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), mas sim um contrato como pessoa jurídica (PJ), após a abertura de um CNPJ.
O peso do vínculo formal no mercado de trabalho brasileiro
A repercussão do caso de Matheus Tavares trouxe à tona discussões que transcendem sua história individual, abordando questões fundamentais sobre o mercado de trabalho:
- O peso do vínculo formal na avaliação profissional
- O julgamento social sobre trajetórias fora da CLT
- A ideia de que existe um 'tempo certo' para ingressar no mercado formal
Criada em 1943, a CLT organiza as relações de trabalho no Brasil e garante direitos fundamentais como férias remuneradas, décimo terceiro salário e Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Ao longo das décadas, esse modelo passou a ser associado também à ideia de estabilidade profissional.
Na prática, porém, esse modelo não representa toda a realidade do mercado brasileiro. Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que aproximadamente 38,5 milhões de brasileiros estão na informalidade, grupo que inclui trabalhadores sem carteira assinada, profissionais autônomos e parte dos que atuam por conta própria.
Para o professor Fernando Cardoso, especialista em mercado de trabalho, o vínculo formal ainda influencia a leitura sobre a trajetória de um profissional, mas deixou de ser determinante. 'O foco está migrando da formalização para a capacidade de entrega', afirma o especialista. Segundo sua análise, experiências fora da CLT podem ser valorizadas, desde que apresentadas de forma estruturada e com resultados claramente demonstrados.
Os desafios de acessar o mercado formal
Antes de conseguir sua vaga atual como engenheiro de software, Matheus enfrentou dificuldades significativas em processos seletivos, especialmente nas etapas iniciais. 'Eu não passava do RH. Só consegui quando falei direto com o gestor técnico', relata sobre suas experiências anteriores.
Essa situação reflete um ponto frequentemente levantado por especialistas: embora o mercado esteja em transição, ainda existem filtros baseados no histórico formal. O professor Edgard Rodrigues explica que empresas mais tradicionais tendem a valorizar o registro em carteira, enquanto outras já adotam critérios diferentes em seus processos seletivos.
'Há uma migração para recrutamentos que priorizam repertório, competências e capacidade de aprendizado', destaca Rodrigues. No caso específico de Matheus, o avanço veio quando ele organizou suas experiências em forma de portfólio, reunindo projetos e soluções desenvolvidas de forma independente ao longo de sua trajetória profissional.
A questão da entrada tardia no mercado formal
A idade de Matheus Tavares também apareceu como um ponto de questionamento na repercussão de seu caso. Especialistas, porém, alertam que esse debate precisa ser analisado à luz de transformações mais amplas no mercado de trabalho brasileiro.
O economista Bruno Imaizumi, da LCA 4intelligence, explica que o mercado de trabalho nacional passa por mudanças estruturais significativas que ajudam a entender trajetórias como a de Matheus. Entre essas transformações, destacam-se:
- O envelhecimento gradual da população brasileira
- O maior tempo dedicado aos estudos e formação profissional
- A redefinição do que significa construir uma carreira no século XXI
'O mercado está mais dinâmico e as pessoas permanecem mais tempo em formação. Isso faz com que a entrada no mercado formal aconteça, muitas vezes, mais tarde', afirma Imaizumi. Para o economista, o cenário recente também influencia esse movimento, com a taxa de desemprego em níveis historicamente mais baixos permitindo que diferentes formas de ocupação – tanto formais quanto informais – avancem simultaneamente.
Nesse contexto, a ideia de um momento 'certo' para começar uma carreira perde força significativa. 'As carreiras estão menos lineares. O momento de entrada não define o potencial', reforça o professor Edgard Rodrigues.
Para Fernando Cardoso, o modelo tradicional – estudar, se formar e ingressar imediatamente no mercado formal – já não representa a maioria das trajetórias profissionais contemporâneas. 'Entrar mais tarde pode significar chegar com mais repertório e mais clareza de objetivos', analisa. Ainda assim, ele ressalta que o tempo de experiência formal pode influenciar o ponto de entrada em algumas carreiras específicas, especialmente nos estágios iniciais.
Como provar experiência em um mercado em transformação
À medida que o mercado amplia suas formas de avaliação profissional, cresce também a importância de como cada profissional comunica sua trajetória. 'Não basta listar atividades. É preciso mostrar impacto e aprendizado', afirma Edgard Rodrigues sobre essa nova dinâmica.
Portfólios, projetos concretos e exemplos práticos têm ganhado espaço significativo nesse processo, especialmente em áreas mais técnicas como a de tecnologia. Segundo Cardoso, experiências desenvolvidas fora da CLT costumam cultivar habilidades altamente valorizadas no mercado atual, como autonomia, adaptabilidade e capacidade de resolução de problemas, mas precisam ser organizadas de forma estratégica para serem devidamente reconhecidas.
Estabilidade versus autonomia: um debate atual
A discussão sobre o caso de Matheus Tavares também dialoga com mudanças profundas na forma como o trabalho é percebido na sociedade contemporânea, principalmente entre os mais jovens, que tendem a ser mais seduzidos por trabalhos informais e com maior autonomia.
Nas redes sociais, o termo 'CLT' aparece frequentemente associado a rotinas desgastantes, com longos deslocamentos e remuneração considerada insuficiente – percepção que, segundo a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, está ligada às condições reais enfrentadas por parte significativa dos trabalhadores brasileiros.
Ao mesmo tempo, especialistas alertam que alternativas como trabalho autônomo ou digital não garantem automaticamente estabilidade financeira ou segurança profissional. 'É importante considerar tanto a autonomia quanto a segurança envolvidas em cada modelo', afirma Pinheiro-Machado sobre essa complexa equação.
Foi pensando nesse equilíbrio que, atualmente, mesmo atuando como pessoa jurídica (PJ), Matheus Tavares avalia outras possibilidades profissionais, incluindo propostas no regime CLT, apesar de ainda não possuir Carteira de Trabalho formalmente registrada.
Depois de anos acumulando experiências em diferentes atividades, ele afirma que a principal mudança em sua vida não foi apenas o contrato de trabalho, mas a forma como passou a organizar e compreender sua própria trajetória profissional. 'Agora eu consigo enxergar um caminho', conclui com clareza sobre seu processo de autodescoberta profissional.



