Brasil enfrenta cenário duplo no futuro do trabalho até 2030, segundo análise especializada
O Brasil pode chegar ao ano de 2030 experimentando dois futuros do trabalho ao mesmo tempo, conforme avaliação da especialista em comunicação corporativa Mariana Achutt. De um lado, empresas podem alcançar níveis elevados de produtividade graças à inteligência artificial; de outro, uma parcela significativa dos trabalhadores pode ficar para trás devido à falta de preparação adequada.
Economia do copiloto versus progresso estagnado
Segundo Achutt, o país atualmente vive uma mistura entre dois cenários descritos no relatório mais recente do Fórum Econômico Mundial. O primeiro é chamado de "economia do copiloto", onde a inteligência artificial atua como um parceiro que aumenta a produtividade das operações. O segundo cenário é o "progresso estagnado", caracterizado por avanços tecnológicos limitados a alguns setores enquanto outros permanecem em desvantagem.
"O Brasil tem forte adesão tecnológica, com grande presença de smartphones e rápida popularização de ferramentas de IA, mas ainda carrega desafios estruturais de educação e qualificação profissional", explica a especialista. "Isso faz com que algumas empresas já operem com tecnologia como copiloto do trabalho, enquanto grande parte do mercado avança de forma desigual."
Variáveis que definem os cenários futuros
O relatório do Fórum Econômico Mundial identifica duas variáveis principais que moldarão o futuro do trabalho:
- A velocidade do avanço da inteligência artificial
- O grau de preparação das pessoas e das instituições
Quando essas duas dimensões caminham juntas, surgem ganhos significativos de produtividade e novas profissões emergem. No entanto, quando a tecnologia avança sem o preparo adequado da força de trabalho, aumentam as desigualdades e a insegurança no emprego.
Realidade atual do uso de IA nas empresas brasileiras
Estudos recentes revelam um cenário preocupante sobre a implementação da inteligência artificial no ambiente corporativo brasileiro. Uma pesquisa global da consultoria Michael Page mostra que 25% dos brasileiros consideram que seus empregadores não estão preparando adequadamente a mão de obra para lidar com a IA.
A pesquisa Panorama Nacional 2025 – IA e o Futuro do Trabalho, realizada pela Cornerstone Career Services em parceria com a ABRH-SP e o Infojobs, apresenta dados ainda mais reveladores:
- 79,1% dos profissionais já utilizam ferramentas de IA em suas rotinas de trabalho
- Apenas 23,7% afirmam que suas empresas possuem políticas claras sobre o uso da tecnologia
Erros comuns e mudanças necessárias
Na avaliação de Mariana Achutt, muitas companhias ainda tratam a inteligência artificial como uma ferramenta isolada, e não como uma transformação profunda na forma de trabalhar. "O erro número um é confundir treinamento com prontidão", alerta a especialista. "Prontidão é capacidade real de mudar processos, liderança e cultura. Muitas empresas compram licença de software, fazem um workshop e esperam milagre, mas não mudam a operação nem medem impacto."
O futuro do trabalho também exigirá mudanças significativas na forma como as empresas contratam seus profissionais. Requalificar funcionários existentes é necessário, mas não suficiente diante das transformações em curso. As organizações precisam abandonar a ideia de encontrar profissionais prontos para funções que ainda estão sendo redesenhadas pela tecnologia.
"Não existe profissional pronto para absolutamente nada neste momento", afirma Achutt. "As competências estão se formando no uso e na experimentação. Organizações que continuarem buscando talentos perfeitos no mercado enfrentarão escassez permanente de mão de obra, enquanto aquelas que investirem em formação interna conseguirão acompanhar a velocidade das mudanças."
Preparação desigual define o amanhã
A análise sugere que o Brasil caminha para um futuro onde a produtividade empresarial pode crescer significativamente com o auxílio da inteligência artificial, mas onde a desigualdade no mercado de trabalho pode se aprofundar caso não haja investimentos adequados em educação e qualificação profissional. A capacidade das empresas de integrar a tecnologia de forma estratégica, combinada com políticas públicas eficazes de preparação da força de trabalho, determinará qual dos dois futuros predominará até 2030.



