Governo anuncia subsídios para combustíveis, mas alta internacional mantém pressão nos preços
Subsídios a combustíveis não zeram alta, dizem analistas

Medidas do governo sobre combustíveis trazem alívio limitado, apontam economistas

As medidas anunciadas pelo governo federal para conter a alta dos preços dos combustíveis devem oferecer algum alívio aos consumidores, mas não serão capazes de zerar completamente a disparada observada nos postos de abastecimento. Analistas ouvidos pela revista VEJA nesta terça-feira, 7 de abril de 2026, avaliam que o impacto fiscal da iniciativa tende a ser praticamente nulo, uma vez que a arrecadação adicional gerada pela alta do petróleo no mercado internacional compensa os gastos com os subsídios.

Detalhes das medidas anunciadas pelo governo

Na segunda-feira, o governo federal divulgou um pacote de medidas que inclui um subsídio extra de 80 centavos por litro de diesel, elevando a subvenção total para 2 reais por litro – anteriormente era de 1,20 real. Além disso, foi proposta a isenção do imposto sobre o querosene de aviação (QAV) e adotadas ações voltadas ao biodiesel e ao gás de cozinha.

No caso do biodiesel, os impostos federais serão temporariamente zerados. Já o gás de cozinha, conhecido como GLP (gás liquefeito de petróleo), contará com uma subvenção federal temporária para compensar a alta dos preços no cenário internacional. De acordo com o governo, o programa de subsídio ao diesel será compensado pelo aumento da arrecadação proveniente da disparada do petróleo.

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Impacto fiscal e arrecadatório das medidas

A estimativa oficial aponta um impacto de 31 bilhões de reais com a medida, enquanto a alta da commodity deve render 40 bilhões de reais extras aos cofres públicos. Alberto Ajzental, professor de economia da FGV, explica que o Brasil consome entre 70 bilhões e 75 bilhões de litros de diesel anualmente. Segundo ele, o país importa cerca de 17 bilhões de litros por ano – o equivalente a aproximadamente 1,7 bilhão de litros por mês.

“Essa é a quantidade que será impactada pela alta do diesel e que deve receber o alívio do governo”, afirma Ajzental. Na avaliação do economista, para compensar esse volume, o governo teria de gastar cerca de 3,4 bilhões de reais por mês, o que equivale a 40,8 bilhões de reais ao longo de 12 meses. Em outras palavras, o ganho arrecadatório com a alta do petróleo tende a ser consumido pela tentativa de conter a escalada dos combustíveis.

Efeitos sobre a inflação e taxa de juros

Tatiana Migiyama, professora do núcleo de gestão tributária da FIPECAFI, afirma que as medidas têm efeito desinflacionário no curto prazo, ao reduzir os preços de itens relevantes como diesel, GLP e outros combustíveis. Segundo ela, isso pode contribuir para aliviar os índices de inflação, especialmente nos próximos meses.

Sérgio Vale, economista da MB Associados, observa que bancos centrais ao redor do mundo cogitam elevar os juros para conter a inflação em meio à alta do petróleo. No Brasil, segundo ele, essa possibilidade também chegou a entrar no radar do Banco Central.

“Essa questão não está completamente descartada por conta da piora da inflação esperada para este ano, mas o governo faz esse esforço para tentar evitar uma alta da Selic. Ainda assim, a cúpula petista entendeu que o Banco Central vai ter muita dificuldade para cortar juros”, diz Vale.

Impacto real no preço do diesel e perspectivas futuras

O consenso entre os analistas é que os subsídios ajudam a amortecer a alta, mas não eliminam a pressão dos preços internacionais sobre os combustíveis. Para eles, a pressão de custos continuará presente na economia. “Isso pode gerar recomposição de preços no futuro e efeitos inflacionários posteriores”, afirma Migiyama.

Ajzental calcula que a combinação do novo subsídio de 80 centavos com a subvenção já existente de 1,20 real deve reduzir de forma relevante o impacto da alta. Dados da Abicom indicam que a defasagem do diesel está em 2,52 reais por litro. Nesse cenário, as medidas do governo reduziram a alta potencial para cerca de 52 centavos por litro.

“A subvenção extra de 80 centavos é uma ótima notícia no sentido de ser mais factível para atenuar os preços, dado que os 1,20 real não seriam suficientes”, afirma Ajzental.

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Necessidade de transição energética

Para enfrentar de forma estrutural os choques provocados pelo petróleo, os economistas defendem que o Brasil avance na transição para uma matriz energética mais renovável. Sérgio Vale destaca que o país atualmente importa cerca de 30% do diesel que consome. Segundo ele, substituir gradualmente essa dependência por fontes mais sustentáveis é essencial para reduzir a vulnerabilidade do país a crises geopolíticas.

“O Brasil precisa se afastar gradativamente desse produto”, conclui Vale, enfatizando a importância de políticas de longo prazo para diminuir a exposição às volatilidades do mercado internacional de combustíveis fósseis.