Petróleo dispara 7,5% com guerra no Irã; cenário aponta alta adicional
Os preços dos contratos futuros do petróleo Brent registraram uma forte alta nesta segunda-feira, 2 de março de 2026, em meio à guerra no Oriente Médio. A principal preocupação do mercado é a paralisação do transporte da commodity no estreito de Ormuz, responsável pela circulação de cerca de 20% do petróleo mundial.
Por volta das 9h30, o contrato futuro do Brent com vencimento em março avançava 7,5%, atingindo 78,33 dólares por barril. O foco das atenções segue no estreito de Ormuz, onde a Guarda Revolucionária do Irã afirmou que nenhum navio está autorizado a atravessar a região.
Impacto no transporte e resposta da OPEP
Até a noite de domingo, três navios haviam sido danificados ao tentar cruzar o estreito, e um marinheiro morreu. Ao todo, cerca de 200 embarcações aguardam definição e permanecem ancoradas na região. Em resposta, a OPEP anunciou que aumentará a produção em 206 mil barris por dia a partir de abril de 2026.
Analistas ouvidos por VEJA não negam a possibilidade do petróleo chegar a 120 dólares por barril em caso de guerra generalizada, mas há fatores que podem deixar a commodity por volta dos 80 dólares por barril.
Análises de especialistas sobre os cenários possíveis
Segundo Humberto Aillon, professor da FIPECAFI, uma interrupção total no estreito pode levar o petróleo a 95 dólares por barril. "Em contrapartida, Arábia Saudita, Iraque e Emirados Árabes Unidos, se ampliarem a produção, podem regular o preço global para uma faixa entre 75 e 80 dólares por barril", afirma.
Felipe Sant’Anna, especialista em investimentos do grupo Axia Investing, avalia que o petróleo pode alcançar 120 dólares por barril caso o conflito se prolongue e o Irã sofra novas sanções ou tenha a produção paralisada, em combinação com o bloqueio de Ormuz. "Essa estimativa é reforçada pelo banco JPMorgan. Caso o conflito perca intensidade ou haja algum tipo de acordo, o preço tende a recuar rapidamente, pois o mercado se ajusta diante da cautela e da oferta", diz Sant’Anna.
Fatores que podem limitar a alta sustentada
Segundo ele, mesmo que o petróleo atinja 120 dólares, a tendência seria de queda posterior. Um dos fatores é que a economia global está menos aquecida do que em 2022, quando o barril chegou a esse patamar. Naquele momento, o mundo saía da pandemia e operava com juros baixos. Hoje, as taxas estão elevadas e as economias, mais enfraquecidas.
Antes da escalada no Oriente Médio, o mercado projetava o petróleo em torno de 60 dólares por barril. "Em um cenário em que não se sabe quando ou como o conflito termina, é natural que o preço dispare e até apresente comportamento irracional, por isso os 120 dólares são plausíveis. No entanto, esse nível não se sustentaria, pois não é do interesse dos Estados Unidos um novo repique inflacionário neste momento", afirma.
Visão cética e influência da China
William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, adota uma visão mais cética. Para ele, o petróleo só superaria a marca dos 100 dólares e alcançaria 120 dólares em caso de uma guerra generalizada no Oriente Médio — e não apenas de um conflito envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã. "A China também tem interesses na região e não deseja um bloqueio total do estreito de Ormuz, já que boa parte do petróleo destinado à Ásia passa por ali", explica. O estrategista projeta o barril em torno de 80 dólares.
Conclusão: cenário de incerteza com tendência de estabilização
Em síntese, a guerra no Oriente Médio tende a manter o petróleo próximo de 80 dólares por barril, com possibilidade de alta para 120 dólares em caso de escalada ampla e prolongada do conflito, com impactos relevantes sobre a produção. Ainda assim, esse patamar dificilmente seria sustentável, diante de uma economia global menos aquecida do que em 2022 e da falta de apetite, tanto no Ocidente quanto no Oriente, por uma nova pressão inflacionária.
