Crise de saúde mental nas escolas: 30% dos alunos já pensaram em se machucar
Saúde mental escolar: 30% dos alunos pensaram em se machucar

Crise silenciosa nas salas de aula: saúde mental de adolescentes preocupa especialistas

Um quadro alarmante se desenha nas escolas brasileiras, onde três em cada dez estudantes já manifestaram vontade de se machucar de propósito, segundo dados recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNse). Os números, que refletem uma realidade preocupante, mostram que 42,9% dos alunos se sentem irritados, nervosos ou mal-humorados com frequência, enquanto 18,5% consideram que a vida não vale a pena ser vivida.

Pesquisa revela cenário crítico entre adolescentes

Realizada pelo IBGE em parceria com os ministérios da Educação e da Saúde, a investigação abrangeu 118.099 estudantes entre 13 e 17 anos de 4.167 escolas públicas e privadas em todo o território nacional durante 2024. A amostra, considerada representativa do universo estudantil brasileiro, traz à tona questões que demandam atenção imediata das autoridades educacionais e da sociedade como um todo.

Os dados são ainda mais preocupantes quando analisados por gênero, com indicadores mostrando situações mais críticas entre as meninas. Além dos aspectos emocionais, a pesquisa identificou violências recorrentes: 18,5% dos estudantes relataram já ter sofrido assédio sexual em algum momento da vida, enquanto mais de um quarto (27,2%) foi vítima de bullying duas ou mais vezes.

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Desafio prioritário para gestores educacionais

Patricia Mota Guedes, superintendente do Itaú Social, destaca que esses resultados reverberam tendências observadas nos últimos anos. "A pesquisa volta a reverberar resultados que a gente vem acompanhando nos últimos anos e que apontam para a questão da saúde mental como algo muito central para ser tratado nas políticas educacionais", afirma a especialista.

Um estudo complementar realizado pelo Itaú Social em parceria com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) confirma essa prioridade: 75,2% dos secretários municipais de Educação apontam a saúde mental de alunos e professores como o principal desafio da gestão nos anos finais do ensino fundamental.

Escola como espaço de (des)acolhimento

Em 2024, o Ministério da Educação, com apoio técnico do Itaú Social, reuniu percepções de quase 2,3 milhões de adolescentes. Os resultados são preocupantes: 46% dos estudantes de 8º e 9º anos não veem a escola como espaço de acolhimento e pertencimento. Paralelamente, a PeNse revela que um em cada quatro jovens (26,1%) sente que ninguém se preocupa com eles na maior parte do tempo.

A situação se agrava quando consideramos as condições de trabalho dos educadores. Quase 20% dos professores das redes estaduais atendem mais de 400 estudantes durante o ano letivo, com casos extremos chegando a 525 alunos por docente. Essa sobrecarga impacta diretamente o emocional tanto dos professores quanto dos estudantes, criando um ciclo difícil de romper.

Estratégias multifacetadas para enfrentamento da crise

Patricia Guedes defende uma abordagem integrada para enfrentar esse cenário complexo. Na escola, são necessárias estratégias de acolhimento que estimulem interações qualificadas entre estudantes e entre estudantes e professores. A ampliação da educação em tempo integral, prevista no novo Plano Nacional de Educação (PNE), junto com a dedicação integral do professor, pode contribuir significativamente para melhorar esse quadro.

"Vamos criando melhores condições para realmente desenvolver e apoiar as escolas nas estratégias de acolhimento, de pertencimento, de clima escolar", explica a superintendente. "É importante ter políticas, diretrizes, sim, mas as escolas também precisam de condições para que elas possam fazer com que essas políticas virem uma realidade no cotidiano delas".

Os próprios adolescentes, quando consultados, pediram mais oportunidades de interação e menos aulas expositivas, sugerindo aumento de atividades artísticas, culturais e esportivas. Esse cardápio diversificado de experiências pode e deve ser desenvolvido no contexto da educação integral, conforme defende a especialista.

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Rede de proteção além dos muros escolares

A parceria entre escola e família ocupa lugar central nessa discussão. A aproximação família-escola e maior apoio à parentalidade na adolescência são fundamentais, exigindo mais informação sobre essa etapa do desenvolvimento e sobre como lidar com seus desafios.

Identificar sinais de que um aluno precisa de encaminhamento para profissionais de saúde mental constitui um tipo de letramento necessário para todas as escolas. O Itaú Social disponibiliza inclusive um curso gratuito nesse sentido, reconhecendo que a escola sobrecarregada não pode enfrentar sozinha esse desafio complexo.

A educação integra uma rede maior de proteção à criança e ao adolescente, que inclui assistência social, saúde, cultura, esporte e outras áreas. Patricia Guedes defende que todas essas pastas precisam olhar para os dados e revisar como seus serviços acolhem os adolescentes. "Essa tarefa não pode ficar só com a educação", alerta.

A especialista propõe a definição de protocolos locais para encaminhamento de adolescentes da educação para a saúde ou assistência social, criando fluxos mais eficientes de atendimento. Outra contribuição importante vem do ECA Digital, que ao estabelecer regras para uso de telas e plataformas, pode estimular a reconexão dos alunos no ambiente escolar e favorecer a reconstituição de vínculos.

Urgência que não pode ser ignorada

Dados da Organização Mundial da Saúde revelam que um em cada sete jovens entre 10 e 19 anos convive com algum transtorno mental no mundo. No Brasil, a gravidade da situação exige que esse tema ocupe lugar central nas discussões políticas e educacionais, especialmente considerando as próximas eleições.

A crise de saúde mental nas escolas brasileiras representa não apenas um desafio educacional, mas uma questão de saúde pública que demanda respostas coordenadas, investimentos adequados e uma mudança cultural sobre como entendemos e valorizamos o bem-estar emocional das novas gerações.