Inflação desafia Milei e ameaça narrativa de recuperação econômica na Argentina
Dados recentes mostram uma desaceleração preocupante do processo de desinflação na Argentina, colocando o governo do presidente Javier Milei diante de uma fase mais complexa do ajuste econômico. Após uma queda inicial significativa, a alta de preços voltou a acelerar, atingindo 3,4% em março de 2026, o maior patamar mensal registrado em um ano inteiro.
Da queda rápida ao "piso difícil" da inflação
Quando assumiu a presidência em 2023, Milei herdou uma economia com inflação mensal de dois dígitos e uma taxa anual próxima de 300%. A estratégia inicial, baseada em um forte ajuste fiscal e no controle rigoroso do câmbio, conseguiu reduzir rapidamente o ritmo de alta dos preços. A inflação mensal chegou a cair para cerca de 1,5% em meados de 2025, mas desde então voltou a subir, oscilando entre 2,9% e 3,4% no início deste ano.
Em termos anuais, a inflação ainda gira em torno de 33%, mantendo-se como uma das mais altas do mundo, apesar da queda expressiva observada anteriormente. Essa segunda etapa do combate à inflação tende a ser mais difícil, pois reduzir a inflação de níveis extremamente altos é mais simples do que estabilizá-la em patamares baixos e sustentáveis a longo prazo.
Fim da âncora cambial expõe fragilidades estruturais
Parte da perda de tração na desinflação está diretamente ligada à mudança na política cambial implementada pelo governo. No início da gestão, o controle rigoroso do peso funcionou como uma âncora eficaz para os preços. Contudo, após um acordo com o Fundo Monetário Internacional, o país passou a adotar um regime cambial mais flexível.
Sem essa referência clara e estável, a economia argentina voltou a exibir um problema estrutural profundo: a inércia inflacionária. Em um país acostumado a décadas de alta de preços, empresas e consumidores antecipam reajustes constantes, criando um ciclo vicioso difícil de romper. No dia a dia, isso se traduz em práticas como remarcação preventiva de preços por comerciantes, contratos com reajustes automáticos e negociações salariais baseadas na inflação passada, mecanismos que alimentam novas altas de forma contínua.
Energia e conflitos internacionais pressionam preços
O cenário internacional agravou significativamente esse quadro já delicado. A guerra no Oriente Médio elevou a volatilidade nos preços de energia, impactando diretamente os custos de produção e transporte na Argentina. Esse choque externo se soma a ajustes internos ainda em curso, como a redução gradual de subsídios a tarifas públicas essenciais.
Com isso, serviços como energia e transporte continuam subindo de preço, mesmo com a desaceleração observada em alguns bens industriais. Dados recentes mostram que os preços de alimentos seguem particularmente pressionados. Em março, os alimentos subiram 3,4% no país, com destaque para as carnes, que avançaram impressionantes 6,9% apenas na região de Buenos Aires.
Salários perdem para a inflação e consumo enfraquece
Ao mesmo tempo, a renda da população não acompanha o ritmo acelerado dos preços. Os salários formais cresceram cerca de 2% ao mês em fevereiro, ficando abaixo da inflação mensal, o que resulta em uma perda real e significativa de poder de compra. Estudos realizados por economistas da Universidade de Buenos Aires indicam que trabalhadores formais e aposentados acumulam uma queda real de renda entre 8% e 10% desde o início do governo Milei.
Esse efeito tem impacto direto no consumo e na percepção econômica da população, mesmo com a redução da pobreza observada após o pico da crise econômica anterior. A economia argentina é descrita por analistas como estagnada, sem sinais claros de recuperação no curto prazo, o que começa a afetar o capital político do presidente.
Dúvidas sobre estratégia e credibilidade dos dados
Outro ponto de tensão importante é a ausência de uma política monetária explícita com metas claras de inflação, considerada por muitos economistas uma ferramenta fundamental para ancorar expectativas de preços. Além disso, decisões recentes envolvendo a metodologia de cálculo do índice de preços geraram questionamentos sérios.
O adiamento da atualização da cesta de consumo levou à saída do chefe do órgão estatístico nacional, reacendendo temores históricos sobre a credibilidade dos dados oficiais divulgados pelo governo. Pesquisas recentes mostram uma queda na aprovação do presidente Milei, com aumento da preocupação dos eleitores com desemprego e renda, que passaram a pesar mais do que a inflação no debate público atual.
Reta final será decisiva para o futuro econômico
O governo segue defendendo publicamente que a inflação voltará a cair e projeta níveis abaixo de 1% ao mês no futuro próximo. No entanto, a combinação de fatores internos, como a inércia inflacionária estrutural, e externos, como a alta persistente de energia, torna o cenário mais desafiador do que nunca.
A Argentina entra, assim, na fase mais difícil de seu ajuste econômico: aquela em que o combate à inflação deixa de ser uma resposta emergencial e passa a exigir mudanças estruturais profundas e sustentáveis. A taxa de desemprego subiu para cerca de 7,5%, quase 2 pontos percentuais acima do início do governo, acrescentando outra camada de complexidade ao panorama econômico nacional.



