Inflação cai a 3,81% em 12 meses, mas guerra no Oriente Médio ameaça cenário econômico
Inflação cai a 3,81%, mas guerra ameaça economia

Inflação anual cai para 3,81%, mas cenário internacional preocupa economistas

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de fevereiro, divulgado pelo IBGE, apresentou uma alta mensal atípica de 0,70%, mas revelou uma desaceleração significativa na inflação acumulada em 12 meses, que caiu para 3,81%. Esta é a menor taxa anual desde os 3,16% registrados em junho de 2023, representando um alívio para os consumidores brasileiros.

Educação e Transportes lideram altas mensais

Os reajustes anuais das mensalidades escolares provocaram uma alta expressiva de 5,21% no grupo Educação em fevereiro, respondendo por 44% do IPCA mensal. Já o grupo Transportes, influenciado pela demanda do período de Carnaval, registrou aumento de 0,74%, com destaque para as passagens aéreas, que subiram 11,40%. Esses dois grupos, juntos, representaram quase 66% da inflação mensal de 0,70%.

Em contrapartida, os combustíveis apresentaram queda de 0,47%, com reduções na gasolina (-0,61%) e no GNV (-3,10%). A Petrobras contribuiu para esse cenário ao baixar em 5,2% o preço da gasolina nas refinarias, aproveitando que extrai 70% do petróleo consumido nas suas refinarias do pré-sal a um custo final inferior a US$ 21.

Comportamento dos alimentos e bebidas

O grupo Alimentos e Bebidas subiu 0,26% em fevereiro, com destaque para as altas em carnes (0,58%), ovos (4,55%) e leite longa vida, além do reajuste anual do açaí. Entretanto, em 12 meses, as carnes acumulam alta de apenas 2,22%, enquanto o leite longa vida apresenta queda superior a 14% e os ovos recuam 10%.

Do lado das baixas, frutas (-2,78%), óleo de soja (-2,62%), arroz e café em pó se destacaram. O arroz, em particular, acumula uma expressiva queda de 27,8% nos últimos 12 meses, enquanto o café em pó reduziu sua alta anual para 10,13% após recuar 1,20% em fevereiro.

Juro real sobe para 10,77%

Com a taxa Selic mantida em 15% ao ano e a inflação anual em 3,81%, o juro real brasileiro aumentou para 10,77%, contra 10,30% registrado em dezembro de 2025. Este cenário, em condições normais, permitiria uma redução tranquila de 0,50 ponto percentual na Selic, levando-a para 14,50%.

Os demais grupos de despesa apresentaram oscilações moderadas, variando entre 0,13% de Artigos de residência e 0,59% de Saúde e cuidados pessoais.

Ameaça externa: guerra no Oriente Médio

O cenário econômico favorável, no entanto, enfrenta sérias ameaças externas. Conflitos no Oriente Médio entre Israel-Estados Unidos e Irã têm causado turbulência no mercado mundial de petróleo e energia, com reflexos imediatos nos preços internacionais.

O contrato do petróleo Brent para entrega em maio chegou a US$ 100 por barril, registrando alta de 9%, enquanto todos os vencimentos até dezembro foram puxados para cima. A Agência Internacional de Energia reduziu drasticamente sua previsão de oferta, de 2,4 bilhões para 1,1 bilhão de barris por dia, alertando que a guerra está criando "a maior interrupção no fornecimento da história do mercado global de petróleo".

Impactos nos mercados financeiros globais

Os efeitos da crise geopolítica já são sentidos nos mercados internacionais:

  • O índice Dow Jones caiu mais de 500 pontos, fechando no menor nível desde 1º de dezembro
  • Os índices S&P 500 e Nasdaq também registraram recuos significativos
  • Mercados asiáticos e europeus acompanharam a tendência de queda
  • O dólar americano se valorizou frente a outras moedas
  • Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano com vencimento em 10 anos permaneceram acima de 4,2%

Ataques a sete navios em águas próximas ao Irã nas últimas 24 horas intensificaram as preocupações, enquanto a agência de notícias semioficial iraniana Fars noticiou que grupos apoiados pelo Irã poderiam fechar uma passagem crucial para o tráfego de embarcações que acessam o Canal de Suez pelo Mar Vermelho.

Medidas governamentais e perspectivas

Diante deste cenário volátil, o governo brasileiro reagiu zerando o PIS/Cofins do diesel e gasolina, similarmente ao que fez em 2022, e reforçou a fiscalização sobre aumentos abusivos de combustíveis nas bombas. A liberação recorde de 400 milhões de barris em reservas estratégicas de petróleo anunciada na quarta-feira não foi suficiente para conter a alta dos preços.

Os dirigentes dos Bancos Centrais, incluindo o Banco Central do Brasil, enfrentam agora um dilema complexo para a próxima reunião de política monetária, precisando equilibrar o controle da inflação doméstica com os impactos da crise internacional. O Banco Central da Turquia, por exemplo, já optou por manter suas taxas inalteradas, temendo os efeitos inflacionários da crise no petróleo.