Inflação na Argentina mantém patamar elevado com impacto em produtos básicos
O Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) da Argentina divulgou nesta quinta-feira (12) que a inflação no país atingiu 2,9% em fevereiro, mantendo estabilidade em relação a janeiro e registrando o maior patamar em quase um ano. O índice acumulado em 12 meses até fevereiro chegou a impressionantes 33,1%, superando os 32,4% do mês anterior.
Cenário econômico sob gestão Milei
Os dados oficiais mostram que, após uma melhora inicial no ritmo mensal durante 2024, primeiro ano do governo do presidente Javier Milei, a inflação mensal se manteve entre 2% e 3% em 2025, com poucas leituras abaixo de 2%. A partir de maio do ano passado, os números começaram a indicar uma aceleração gradual dos preços, em um cenário que se tornou menos favorável.
O país passou por um forte ajuste econômico sob o comando de Milei, que incluiu:
- Paralisação de obras federais
- Interrupção de repasses financeiros para os estados
- Retirada de subsídios para água, gás, luz e transporte público
Essas medidas resultaram em aumentos expressivos nos preços ao consumidor, afetando especialmente itens básicos como jornais e DVDs, que em muitos casos se tornaram mais caros que serviços de streaming.
Crise política e impacto no mercado
No terceiro trimestre de 2025, Milei enfrentou uma grave crise política após um escândalo envolvendo sua irmã, Karina Milei, secretária-geral da Presidência. Um áudio vazado, no qual ela é acusada de corrupção, está sendo investigado pela Justiça argentina.
Em setembro, o presidente sofreu uma dura derrota nas eleições da província de Buenos Aires, que concentra quase 40% do eleitorado nacional. Os reflexos foram imediatos:
- Títulos públicos despencaram
- Ações de empresas caíram significativamente
- O peso argentino atingiu seu menor valor histórico, cotado a 1.423 por dólar
Ao longo de 2025, a moeda argentina derreteu quase 40% frente ao dólar, encerrando o ano a 1.451,50, em um cenário extremamente prejudicial para o controle inflacionário.
Apoio internacional e medidas de estabilização
O pessimismo no mercado surgiu quando investidores demonstraram preocupação com a capacidade do governo de avançar sua agenda de cortes de gastos. Sucessivas quedas do peso levaram o Banco Central da Argentina a retomar intervenções no câmbio.
A volatilidade só começou a ceder após o governo dos Estados Unidos anunciar apoio à Argentina. Em 20 de outubro, os países oficializaram:
- Um acordo de swap cambial de US$ 20 bilhões
- Promessa de outro incentivo de mesmo valor
- Totalizando US$ 40 bilhões em socorro financeiro
Após a confirmação do apoio pelo governo de Donald Trump, Javier Milei obteve uma importante vitória nas eleições legislativas de 26 de outubro, o que ajudou a conter a disparada do dólar e pode garantir a continuidade das reformas.
Acordos com o FMI e medidas cambiais
No início do governo Milei, a melhora nos indicadores econômicos permitiu que o líder alcançasse, em 11 de abril, um acordo de US$ 20 bilhões em empréstimos junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI). A primeira parcela, de US$ 12 bilhões, foi disponibilizada poucos dias depois.
O banco central argentino anunciou uma redução dos controles cambiais, introduzindo o "câmbio flutuante" onde o valor da moeda é determinado pela oferta e demanda do mercado. No entanto, a deterioração recente nos mercados fez o país voltar a intervir no câmbio.
Medidas recentes para fortalecer a economia
Nos últimos meses, o governo e o Banco Central lançaram diversas medidas para injetar dólares no país:
- Permissão para cidadãos utilizarem dólares mantidos fora do sistema financeiro
- Flexibilização no uso de pesos e dólares no mercado de títulos públicos
- Plano de captação de empréstimo de US$ 2 bilhões com emissões de títulos
- Compromisso de reduzir a emissão de moeda pelo BC
O objetivo do governo é estabilizar a inflação, reforçar as reservas comerciais, melhorar o câmbio e atrair investimentos, enquanto avança no rigoroso ajuste econômico promovido por Milei. Para o presidente argentino, reduzir a inflação é fundamental para eliminar completamente os controles de capitais que prejudicam negócios e investimentos no país.
