Conflito no Oriente Médio impacta economia brasileira com alta do petróleo
A escalada das cotações internacionais do petróleo, impulsionada pelo início da guerra no Irã, está exercendo forte pressão sobre os preços dos combustíveis no Brasil e pode atrasar o tão aguardado ciclo de queda da taxa de juros. Especialistas do mercado, no entanto, afirmam que não há risco iminente de desabastecimento no país, apesar das significativas defasagens nos preços praticados pela Petrobras.
Defasagens históricas nos preços dos combustíveis
A Petrobras já operava com elevadas diferenças entre os preços internos e externos dos combustíveis, especialmente no caso do diesel. Nesta segunda-feira (2), com o barril de petróleo negociado em torno de US$ 80, essas defasagens atingiram o maior patamar desde janeiro de 2025.
De acordo com cálculos da Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis), o diesel vendido pelas refinarias da estatal estava R$ 0,73 por litro abaixo da paridade de importação na abertura do mercado. Já a gasolina apresentava diferença de R$ 0,42 por litro em relação ao preço internacional.
São as maiores defasagens desde janeiro de 2025, quando a Petrobras promoveu o último aumento no preço do diesel vendido por suas refinarias. Naquela ocasião, a defasagem chegou a superar os R$ 0,80 por litro, com reajuste de R$ 0,22 por litro implementado pela empresa.
Petrobras aguarda estabilização do mercado
Procurada pela reportagem, a Petrobras ainda não se manifestou oficialmente sobre possíveis ajustes nos preços dos combustíveis. A empresa tem como prática aguardar o estabelecimento de novos patamares de preços internacionais antes de decidir por reajustes, principalmente em momentos de grande volatilidade como o atual.
As ações da companhia reagiram positivamente à alta do petróleo nos mercados internacionais. Por volta das 12h desta segunda-feira, as ações preferenciais da Petrobras avançavam 3,94%, cotadas a R$ 40,86. Na máxima do pregão, as ações chegaram a R$ 41,53, representando valorização de 5,59%.
Impacto macroeconômico conflitante para o Brasil
Analistas brasileiros e internacionais destacam que o impacto sobre os preços vai depender diretamente da duração e da intensidade do conflito no Oriente Médio, principalmente em relação a eventual fechamento do Estreito de Hormuz por um prazo mais prolongado.
O Estreito de Hormuz é uma rota crucial para o transporte de petróleo, por onde passa cerca de um quinto da produção mundial. O destino da maior parte desse volume são grandes consumidores asiáticos, como China e Índia.
Marcus D'Elia, sócio da Leggio Consultoria, explica que, por enquanto, espera-se muita volatilidade nas cotações internacionais, mas o preço do barril deve ser contido pela sobra de óleo no mundo, resultado do crescimento da demanda menor que o da oferta.
"Se a interrupção do estreito se prolongar por até 40 dias, outras regiões, como EUA e União Europeia poderiam consumir seus estoques também, reduzindo a pressão de demanda e, com isso, contendo a alta de preços", afirma o especialista.
Dilema para o Banco Central
Em relatório divulgado nesta segunda-feira, analistas do Scotiabank ressaltaram que esse cenário apresenta impactos macroeconômicos conflitantes para o Brasil. Por um lado, amplia as receitas com a exportação de petróleo e, consequentemente, valoriza o real.
Por outro lado, "preços de energia estruturalmente mais altos são altamente inflacionários e quase certamente dificultariam o ciclo iminente de cortes de juros recentemente sinalizado pelo Banco Central", destacam os analistas.
Sem risco de desabastecimento
Como exportador de petróleo, o Brasil não depende do Estreito de Hormuz para garantir o abastecimento de combustíveis. O país importa diesel, mas a maior parte vem dos Estados Unidos e da Rússia, conforme explica Sérgio Araújo, presidente da Abicom.
"Não vejo nenhum risco para o suprimento", afirma Araújo. "Há uma pressão maior sobre a Petrobras porque as defasagens estão muito elevadas."
A Petrobras reforçou, em nota enviada à reportagem, que seus fluxos de importação "são majoritariamente fora da região de crise" e que as poucas rotas que existem podem ser redirecionadas. A empresa garantiu que "não há risco de interrupção das importações e exportações no momento".
O cenário atual coloca a Petrobras em uma posição delicada, equilibrando pressões de mercado com a necessidade de manter preços competitivos, enquanto o Banco Central monitora de perto os efeitos inflacionários que podem comprometer o planejado ciclo de cortes na taxa básica de juros.



