Guerra no Irã pode frear queda da Selic no Brasil: entenda os impactos no seu bolso
Guerra no Irã pode frear queda da Selic no Brasil

Guerra no Irã pode frear queda da Selic no Brasil: entenda os impactos no seu bolso

O tão aguardado ciclo de queda dos juros no Brasil, que muitos esperavam ter início nesta quarta-feira (17), pode ser adiado ou tornar-se mais lento do que o previsto. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central define nesta data a taxa básica de juros da economia brasileira, a Selic, que permanece em 15% desde junho do ano passado, seu nível mais alto em quase duas décadas.

Inflação e incertezas internacionais

A alta da Selic foi motivada pela preocupação com a inflação brasileira, que ameaçava ultrapassar a meta tolerada de 4,5% ao ano. Com as expectativas de inflação em queda neste ano, esperava-se que os juros, principal ferramenta para conter aumentos de preços, também diminuíssem. O Banco Central havia indicado em janeiro que o início da flexibilização monetária poderia ocorrer em março, desde que o cenário esperado se confirmasse.

No entanto, o ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã em 28 de fevereiro, desencadeando uma guerra, alterou esse panorama. O conflito provocou aumento no preço internacional do petróleo, com o barril ultrapassando US$ 100 em vários dias, após estar abaixo de US$ 80 antes da guerra. Essa incerteza já repercute na economia brasileira: a Petrobras anunciou aumento no preço do diesel para alinhar-se aos custos internacionais, e o governo federal isentou alguns tributos na tentativa de conter altas significativas.

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Repercussões na economia e expectativas do mercado

O temor é que, se a guerra persistir e os preços do petróleo permanecerem elevados, a alta dos combustíveis no Brasil possa gerar inflação, já que eles são componentes cruciais no custo de produtos como alimentos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou recentemente os esforços do governo para mitigar os efeitos da guerra na população brasileira.

Desde o início do conflito, agentes de mercado revisaram suas projeções. O boletim Focus do Banco Central, divulgado na segunda-feira (17/3), mostra que a expectativa de inflação IPCA para o final do ano subiu de 3,91% para 4,1% em uma semana. Paralelamente, a previsão para a Selic no final de 2026 aumentou de 12,13% para 12,25%, indicando que o ciclo de queda dos juros pode ser menos intenso.

Antes da guerra, algumas corretoras projetavam um corte de 0,5 ponto percentual nos juros brasileiros. Agora, instituições revisaram para um corte mais gradual de 0,25 ponto percentual, enquanto outras, como a XP, preveem que o Copom mantenha a Selic em 15% nesta reunião, argumentando que é melhor aguardar mais embasamento para futuras decisões.

O que é a taxa Selic e como ela afeta o cotidiano

A taxa Selic, sigla para Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, serve como referência para todas as taxas de juros do mercado brasileiro e é definida pelo Copom, composto pelo presidente e diretores do Banco Central. Ela é o principal instrumento de política monetária para controlar a inflação, com autonomia em relação ao governo federal.

Quando a Selic sobe, os juros em financiamentos, empréstimos e cartões de crédito ficam mais altos, desencorajando o consumo e ajudando a reduzir a inflação. Por outro lado, se a inflação está baixa e o Banco Central reduz os juros, os empréstimos ficam mais baratos, incentivando o consumo. Para definir a trajetória da Selic, o BC avalia fatores como inflação, atividade econômica, contas públicas e cenário externo, sempre visando manter a inflação dentro da meta.

Histórico e metas de inflação no Brasil

Desde a pandemia, o mundo enfrentou aumento da inflação devido a desequilíbrios na cadeia produtiva e maior consumo. No Brasil, um ciclo de alta começou em março de 2021, elevando os juros de 2% para 13% até agosto de 2023. Após uma queda para 10,5%, a Selic voltou a subir a partir de setembro de 2024, com oito aumentos consecutivos até atingir 15% em junho do ano passado, nível mantido desde então e o mais alto desde julho de 2006.

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O objetivo do Copom é garantir que a inflação brasileira fique dentro da meta, parte do chamado "tripé macroeconômico" estabelecido em 1999, que inclui também câmbio flutuante e meta fiscal. A meta de inflação para 2026 é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual, permitindo uma inflação de até 4,5%. Desde 2024, a meta é contínua, exigindo cumprimento mês a mês, e descumprimentos exigem explicações públicas da autoridade monetária.

Efeitos práticos dos juros altos

Juros elevados impactam diretamente a vida das pessoas de duas maneiras principais: tornam mais caro pegar dinheiro emprestado e tornam mais atraente poupar e investir em renda fixa. Isso afeta especialmente quem busca financiamentos para casa ou carro, além de consumidores com dívidas no cartão de crédito.

Para empresas, juros altos desestimulam empréstimos para investimentos, o que pode reduzir a geração de empregos e renda. Governos também sofrem, pois juros elevados prejudicam as finanças públicas ao aumentar o custo da dívida. Enquanto investidores podem se beneficiar, é crucial que os retornos superem a inflação para haver ganhos reais.

Por outro lado, para quem não tem reservas financeiras, a vida se torna mais difícil, ampliando a desigualdade social. Classes de renda mais baixas são mais prejudicadas por inflação alta, pois carecem de instrumentos de proteção financeira, conforme destacado pelo Ministério da Fazenda.