Dívida Pública e Juros Recordes em 2025: Déficit Nominal Supera R$ 1 Trilhão
O setor público consolidado, que engloba governo central, estados, municípios e empresas estatais, encerrou o ano de 2025 com um déficit primário de R$ 55,0 bilhões, o equivalente a 0,43% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse resultado representa uma piora em comparação com 2024, quando o déficit foi de R$ 47,6 bilhões, ou 0,40% do PIB. Os dados foram divulgados pelo Banco Central e revelam uma situação fiscal complexa, marcada por desequilíbrios significativos.
Desempenho por Nível de Governo
O governo central registrou um déficit primário de R$ 58,7 bilhões em 2025, correspondendo a 0,46% do PIB, um aumento em relação aos R$ 45,4 bilhões (0,39% do PIB) do ano anterior. Em contraste, os governos regionais mantiveram saldos primários positivos, com R$ 5,9 bilhões (0,05% do PIB) em 2024 e R$ 9,5 bilhões (0,07% do PIB) em 2025. Em dezembro de 2025, o setor público consolidado apresentou um superávit de R$ 6,3 bilhões, inferior ao superávit de R$ 15,7 bilhões observado no mesmo mês de 2024.
O Peso dos Juros da Dívida
Quando se consideram os juros da dívida, a situação se agrava substancialmente. Em 2025, os juros pagos pela rolagem da dívida pública líquida totalizaram R$ 1.007.852 milhões, o que representa 7,91% do PIB. A dívida pública líquida atingiu R$ 8.311.086 milhões, equivalente a 65,3% do PIB. Somando os juros ao déficit primário, o país enfrentou um déficit nominal recorde de R$ 1.062.574 milhões, evidenciando que os esforços para gerar superávits primários são insuficientes diante do montante destinado aos rentistas e ao sistema financeiro.
Para cobrir esse déficit e garantir folga no início de 2026, o Tesouro Nacional aumentou a dívida em R$ 1.090.347 milhões no ano passado, um acréscimo de 4,0% do PIB. A dívida bruta do setor público, conforme o conceito do Banco Central, alcançou R$ 10.017.919 milhões em 2025, ou 78,7% do PIB. Já no conceito do Fundo Monetário Internacional (FMI), que desconta parte dos títulos do Tesouro na carteira do Banco Central, a dívida bruta chegou a R$ 11.888.799 milhões, correspondendo a 93,4% do PIB.
Impacto da Taxa Selic e Perspectivas para 2026
O Banco Central estima que cada ponto percentual de variação na taxa Selic ao longo de um mês impacta o Tesouro em R$ 61,9 bilhões. Em 2025, o aumento dos juros da dívida somou R$ 57,130 bilhões. Para 2026, espera-se uma economia de dois pontos na média anual da Selic, com projeções de inflação entre 3,8% e 4,0% e taxa Selic variando de 12% a 12,75%. Isso resultaria em um juro real entre 7,9% e 8,41%, ainda considerado elevado.
Especialistas destacam que, além da redução dos juros, é indispensável considerar a tributação sobre a renda extra auferida pelos rentistas e pelo sistema financeiro. A tributação sobre a distribuição de juros sobre capital próprio, por exemplo, reduziu práticas de elisão fiscal, mas o mercado resiste a medidas similares em outros instrumentos, como letras de crédito imobiliário (LCIs) e do agronegócio (LCAs).
Consequências para as Famílias e Empresas
Os juros elevados não afetam apenas o setor público; as famílias também enfrentam dificuldades crescentes. Em dezembro de 2025, a taxa de juros média para pessoas físicas subiu para 61,8%, com destaque para crédito pessoal não consignado e cartão de crédito. Para empresas, a taxa no crédito livre aumentou de 24,7% para 25,7%, impulsionada por cheque especial e capital de giro.
O saldo das operações de crédito direcionado às famílias somou R$ 2,0 trilhões ao final de 2025, com um incremento anual de 9,6%, abaixo dos 12,5% de 2024. Com juros médios de 60,1%, estima-se que as famílias pagaram no mínimo R$ 600 bilhões em juros. A inadimplência no crédito às famílias aumentou 1,5 ponto percentual no ano, atingindo 5,0% em dezembro, com destaque para financiamento de veículos e aquisição de outros bens.
Mudanças Regulatórias e Inadimplência
A inadimplência foi influenciada pela Resolução nº 4.996 do Banco Central, implementada em janeiro de 2025. Cerca de 70% da inadimplência registrada até junho de 2025 decorre dessa alteração, que impede a rolagem de operações inadimplentes e exige a constituição de provisões para perdas esperadas. Isso elevou o percentual de operações com atraso acima de 90 dias no Sistema Financeiro Nacional.
O comprometimento da renda das famílias com o serviço da dívida se manteve em 29,3% em dezembro, o maior nível desde o início da série histórica em 2011, enquanto o nível de endividamento subiu para 49,8%. Esses números reforçam os desafios econômicos enfrentados pelo país, com juros asfixiando tanto o setor público quanto as finanças domésticas.