Banco Central inicia ciclo de flexibilização monetária com corte moderado da Selic
O Banco Central do Brasil anunciou nesta quarta-feira, 18 de março de 2026, a decisão histórica de reduzir a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, marcando o início do tão aguardado ciclo de afrouxamento monetário. Após quase dois anos com a Selic estacionada em 15% ao ano – o patamar mais elevado em quase duas décadas –, o Comitê de Política Monetária (Copom) optou por um movimento cauteloso, alinhado com as expectativas que se consolidaram nos últimos dias.
Mercado ajusta projeções diante de cenário externo adverso
Até o início de março, a aposta predominante entre investidores e analistas era por um corte mais intenso de 0,5 ponto percentual. No entanto, a virada nas expectativas ocorreu ao longo da última semana, com os agentes econômicos migrando para um cenário mais conservador. Esse movimento foi refletido inclusive nos preços de opções negociadas na Bolsa de Valores, que passaram a indicar maior probabilidade para um ajuste moderado, cenário que acabou sendo confirmado pelo Copom.
Bruno Perri, economista-chefe da Forum Investimentos, destacou que "o comitê sinalizou claramente que os próximos passos dependerão estritamente dos dados econômicos, mantendo espaço para cortes de 0,25 ponto, mas sem descartar uma pausa caso as expectativas de inflação apresentem deterioração significativa".
Escalada no Oriente Médio e alta do petróleo elevam incertezas
O movimento de flexibilização ocorre em um ambiente externo marcadamente adverso, caracterizado pela intensificação do conflito no Oriente Médio e seus impactos diretos sobre o mercado global de energia. A disparada do petróleo, que voltou a ser negociado acima de US$ 100 por barril, elevou substancialmente o grau de incerteza mundial e contaminou as projeções de inflação em diversas economias, incluindo o Brasil.
Nesta quarta-feira, em particular, houve uma piora acentuada na percepção de risco após novos bombardeios atingirem instalações de gás natural no Catar e no Irã, ampliando os temores de interrupções significativas no fornecimento global de energia. Esse contexto geopolítico turbulento levou analistas a revisarem rapidamente suas projeções, reduzindo o espaço disponível para cortes mais agressivos de juros e, em alguns casos, até considerando a possibilidade de manutenção da taxa básica.
Ciclo de cortes tende a ser gradual e dependente de dados
No cenário doméstico, o corte anunciado marca apenas o início de um ciclo que tende a ser gradual e extremamente dependente da evolução dos indicadores econômicos. O próprio Banco Central já havia indicado, durante a reunião de janeiro, que poderia iniciar a flexibilização caso o cenário evoluísse conforme o esperado, o que efetivamente se confirmou, ainda que com menor intensidade do que o mercado projetava inicialmente.
A revisão recente das expectativas, captada pelo boletim Focus divulgado nesta semana, já apontava para um corte de 0,25 ponto, refletindo claramente a deterioração do ambiente externo. Ainda assim, a autoridade monetária deve manter uma postura cautelosa nos próximos meses, considerando que:
- A inflação brasileira segue pressionada por diversos fatores
- Os efeitos do choque de commodities no mercado internacional ainda são incertos
- O encarecimento dos combustíveis e seus impactos em cadeia sobre os preços permanecem no radar dos formuladores de política
A ata da reunião do Copom, que será divulgada na próxima semana, deve trazer mais detalhes sobre o ritmo e a magnitude dos próximos cortes. Mas a sinalização transmitida até o momento é de um ciclo mais lento do que o inicialmente esperado, com ajustes graduais e condicionados à evolução tanto do cenário internacional quanto dos preços domésticos no Brasil.



