China se aproxima dos EUA como principal destino da indústria brasileira
O tarifaço imposto pelo governo americano está provocando uma significativa reconfiguração nas exportações da indústria brasileira. Desde agosto de 2025, quando produtos brasileiros passaram a enfrentar alíquotas de 50% nos Estados Unidos, a participação do mercado americano nas vendas externas do setor caiu para 13,5%, enquanto a China avançou para 12,6%.
Redefinição histórica de parcerias comerciais
Os Estados Unidos sempre foram, com ampla vantagem, o principal destino internacional da indústria brasileira, adquirindo mais de 17% dos produtos exportados pelo setor em 2024 – antes da volta do presidente Donald Trump ao poder com sua agressiva política comercial. A China ocupava a segunda posição, porém com distância considerável, respondendo por apenas 10% dos produtos industrializados embarcados pelo Brasil no mesmo período.
Contudo, de agosto de 2025 a janeiro de 2026, essa diferença foi drasticamente reduzida, ficando abaixo de US$ 1 bilhão no intervalo analisado: US$ 13,1 bilhões em produtos vendidos aos Estados Unidos contra US$ 12,2 bilhões comercializados com a China.
China como âncora do crescimento modesto
Os dados da balança comercial revelam que, graças principalmente ao desempenho chinês, a indústria de transformação brasileira atravessa o período do tarifaço com um crescimento modesto de 2% nas exportações, comparando os embarques desde agosto com resultados do ano anterior. Sem a China, que aumentou em impressionantes 19% suas compras de produtos da indústria brasileira nos últimos seis meses, os embarques estariam estagnados, dada a redução drástica de 19,5% nas vendas aos Estados Unidos.
Distinção fundamental nas pautas comerciais
É importante destacar que, na maioria dos casos, não houve transferência direta de produtos dos Estados Unidos para a China, pois o Brasil mantém pautas comerciais bem distintas com os dois parceiros:
- As exportações para a China são predominantemente de commodities, especialmente carnes congeladas, açúcar e fibras de celulose
- Para as fábricas de produtos manufaturados, que têm nos Estados Unidos seu principal destino internacional, a China representa o maior concorrente e um mercado de difícil acesso
O gigante asiático produz manufaturados com custos e escalas inalcançáveis para a indústria brasileira, possuindo capacidade suficiente para atender tanto seu mercado interno quanto o resto do mundo. Em outras palavras, a China não necessita de produtos como móveis, pneus, calçados e máquinas que o Brasil está deixando de exportar para os Estados Unidos.
Oportunidades emergentes em nichos específicos
Apesar das diferenças estruturais, portas estão se abrindo em nichos específicos do mercado chinês, especialmente à medida que:
- A classe média chinesa continua expandindo
- A guerra comercial com os Estados Unidos leva a China a buscar fornecedores alternativos
- Produtos típicos ou naturais do Brasil ganham espaço
Em novembro, mais de 200 produtos – sobretudo agropecuários como carne bovina, frutas e café – foram liberados do tarifaço americano. No entanto, 4.500 produtos, sendo 94% da indústria de transformação, continuam pagando a alíquota de 50% para entrar no mercado americano, conforme levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Mudança de comportamento dos exportadores
Para o consultor Theo Paul Santana, que apoia empresas interessadas em aproveitar oportunidades na China, o tarifaço dos Estados Unidos provocou uma mudança significativa de comportamento dos exportadores brasileiros. "Empresários que até pouco tempo atrás sequer consideravam a China hoje estão buscando, de forma ativa e urgente, entender esse mercado", comenta Santana.
O consultor acrescenta: "Posso afirmar com segurança que nunca vi tanto interesse de empresários brasileiros pela China como agora". Ele cita torneiras para canalizações, dispositivos para aquecimento e centrifugadores entre os produtos que tiveram crescimento expressivo nas exportações para o país asiático.
Café, cachaça e novas fronteiras comerciais
No emblemático dia 30 de julho, enquanto o presidente Donald Trump anunciava a imposição da sobretaxa de 40% sobre produtos brasileiros (além dos 10% já praticados), a China autorizava a compra de café fornecido por 183 empresas brasileiras.
Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China (CCIBC), revela que empresas estão agora interessadas em abrir cafeterias brasileiras no país. "Nós, por exemplo, estamos começando a exportar açaí para a China. Nunca houve isso antes", conta Tang.
José Ricardo dos Santos Luz Junior, cochairman e CEO da filial na China do Lide – grupo que promove missões empresariais no exterior – afirma que o tarifaço funcionou como catalisador para estratégias de diversificação. "Vejo o empresariado brasileiro cada vez mais interessado nas oportunidades do mercado chinês", comenta.
Ele destaca que produtos naturais como café, mel e produtos de beleza com princípios ativos da Amazônia são "muito bem recebidos pelos chineses", que reconhecem sua alta qualidade. O Lide China tem seis missões engatilhadas no mercado chinês, incluindo setores de turismo, construção e tecnologia – normalmente são apenas três missões por ano.
Perspectivas futuras e missões institucionais
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) planeja liderar uma missão institucional e de prospecção na China no segundo semestre, sob a liderança de seu presidente Paulo Skaf. A entidade informa que mantém interesse em diálogo aberto com todos os mercados estratégicos e parceiros comerciais consolidados.
As oportunidades decorrem principalmente da ascensão da classe média chinesa, uma população que soma aproximadamente 400 milhões de pessoas – mais do que a população total dos Estados Unidos – e que, pelas metas de Pequim, deve dobrar na próxima década.
Este cenário representa tanto desafios quanto possibilidades para a indústria brasileira, que busca equilibrar relações comerciais tradicionais com a exploração de novas fronteiras em um mercado em constante transformação.